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Genciano Morais Afonso publica "Australopiteco" e fala-nos do seu percurso de vida

 

Genciano Morais Afonso, marcou muitos alunos, que por ele passaram, nas disciplinas de português e história no 2º Ciclo / Ensino Preparatório, tanto pelo seu agradável método de ensino, como pela amizade com que sempre os tratou.

Nascido em Vila Praia de Âncora em 1946, foi aluno dos Salesianos, passando pelas escolas de Mogofores, Manique e Estoril entre 1956 e 1968. Entretanto é chamado ao serviço militar, de Mafra vai para as Operações Especiais em Lamego e segue para Moçambique em 1972 no teatro de guerra colonial. É integrando a Companhia de Artilharia 2717 em Nancatári (Mueda) primeiramente, passando por Malema (Vila Pery). Quando passa à disponibilidade, seis meses antes de regressar, tem a autorização dada pelo general Kaúlza de Arriaga, para poder dar aulas no Instituto Verney de Lourenço Marques. Leccionou também no Colégio D. Dinis, no Externato Marques Agostinho e no Liceu Salazar. Regressa a Lisboa já no ano de 1976.

 

Em Portugal continua a dar aulas inicialmente na Escola Industrial e Comercial de Abrantes, depois é contratado para as aulas de Português e História na Escola dos Salesianos do Estoril,  entre 1977 e 2012. Durante esse período, e em acumulação, ajudou a instalar e foi director pedagógico dos Externato Zambeze e a Escola Princesa Isabel, ambos em Oeiras.

 

Já reformado, dedica-se à escrita, tendo publicado “Australopiteco” em 2022 e, no ano seguinte, “Bons Ventos…”.

O “Australopiteco” vem de um desafio proposto ao seu neto Bernardo, residente na Ilha do Pico, que necessitava, como aluno de 6º ano, fazer uma entrevista a um antigo combatente da guerra do Ultramar. Estava com a pessoa certa, o seu avô. O texto “Memórias do meu baú”, espalhou-se com rapidez devido à qualidade de conteúdos e de escrita pelos vários jornais regionais. Quando uma editora teve conhecimento deste feito, desafia o Prof. Genciano a reuni-los e preparar para publicar um livro. Assim nasce o “Australopiteco”.

 

Esta obra está dividida em três partes:

  1. É uma autobiografia em que o Prof. Genciano detalha os seus primeiros tempos como aluno e como professor.
  2. Ficção, viaja ao passado, na época medieval durante a reconquista cristã.
  3. Viaja por Itália, com temas verídicos e outros de ficção à volta de Roma, Vaticano, Florença e Veneza.
     

Há quem diga que para ser um homem completo tem que: “Ser pai, plantar uma árvore e escrever um livro”, aqui o Prof. Genciano escreve na badana do livro:, “Sou pai, plantei um cajueiro e escrevi um livro.”

 

AMMA: Em primeiro lugar confesso que passei pelas mãos do Prof. Genciano no 1º e 2º ano do Ciclo Preparatório, na Escola  Salesiana do Estoril, na disciplina de História provavelmente em 1986. Dez anos mais tarde a minha irmã é sua aluna na disciplina de Português. Passados estes anos, reencontrá-lo com a sua história de vida e a forma que nos marcou positivamente é um luxo. Quando reencontra um antigo aluno também tem este sentimento de saudade e a amizade que construímos juntos?

Genciano Morais Afonso: Não podia ser doutra maneira. Esses encontros têm sido frequentes, sobretudo a 31 de Janeiro na festa de D. Bosco, nos Salesianos do Estoril, data em que, habitualmente, os antigos alunos marcam presença: partilhamos memórias, falam do seu percurso profissional e agradecem o contributo dos professores para o seu sucesso.

 

AMMA: Das suas aulas, tinha sempre uma postura divertida, construtiva e foi um grande educador. Lembro-me que quando a turma estava distraída, recorria aos anacronismos (algo fora do contexto em termos históricos). Lembro-me de alguns, como por exemplo dizer: “D. Afonso Henriques como não tinha nada que fazer e na TV não estava a dar nada que lhe interessasse e ia para o quintal brincar com a espada”. Em 30 alunos, um que estivesse atento, chamava a atenção: “Prof. mas não havia TV no tempo do D. Afonso Henriques”. Aí a turma ria, conseguia colocar todos nos seus lugares e retomar a aula de forma divertida e eficaz. Onde aprendeu ou desenvolveu esta fabulosa técnica?

GMA: São elogios que, sem falsa modéstia, não mereço. Aprendi com os Salesianos a ser melhor professor. Também os tive quando fui estudante e esses “truques” vieram de lá.

 

AMMA: Aos alunos de português brincava com as figuras de estilo. Ainda se lembra desses tempos? Em que consistia essa volta às figuras de estilo?

GMA: As turmas eram numerosas e, também por isso, havia alunos diferenciados no empenho e na atenção. As artimanhas que usava tinham o fito de captar a atenção dos mais desatentos. Duma forma geral, as figuras de estilo eram apreciadas pelos alunos e o meu jeito para o teatro era um dos motivos dessa abordagem. Teatralizando, aproveitava para lhes ensinar a alegoria, a personificação, a metáfora ou o eufemismo.

 

AMMA: O facto da sua vida tê-lo feito passar por várias escolas Salesianas como aluno, e voltar lá como professor, foi complicado mudar o papel derivado à vivência que tinha tido anteriormente?

GMA: De forma nenhuma: estava sempre “em casa”. Os ambientes eram diferentes mas o espírito sempre o mesmo: disciplina, respeito, entrega, compreensão e, acima de tudo, o “espírito preventivo” que D. Bosco, fundador dos Salesianos, quis imprimir como marca do seu sistema educativo, em oposição ao “repressivo”: o segredo estava em prevenir as situações mais complicadas para evitar castigos. Os alunos apercebiam-se disso.

 

AMMA: A guerra no Ultramar foi uma parte complexa na história, principalmente por quem esteve dentro dela. Nos últimos tempos, quando teve autorização para dar aulas na capital moçambicana, que tipo de crianças e jovens lhe apareceram nas turmas? Alunos interessados em aprender?

GMA: Dei aulas em colégios frequentados por alunos de famílias da classe média/alta, onde procurei que sentissem que a vida não era tão fácil como a que tinham no colégio e em casa. Eram maioritariamente europeus e tinham todas as condições para serem bons alunos, como se viu em exames nacionais e provinciais em que alcançavam os melhores resultados. Recordo os exames orais de Português do antigo 5º ano, feitos no liceu Salazar. Para espanto do júri, os examinandos escolhiam “Os Lusíadas” para serem interrogados e todos o júri louvou pela magnífica prestação. Foi inédito porque, na altura e em quase todas as escolas, ninguém queria ser avaliado sobre Camões.

 

AMMA: Ainda se mantém em contacto com alguns desses alunos do Ultramar?

GMA: Sou convidado todos os anos para encontros de antigos alunos dos dois colégios onde leccionei: o Instituto Verney e o Externato Marques Agostinho, tidos como os mais exigentes e com melhores resultados. Nesses encontros juntam-se dezenas de casais que fazem lembrar outros convívios com os camaradas da CART 2717 (de Mueda) onde fui alferes de Operações Especiais: recordamos o passado e partilhamos fotografias desses tempos.

 

AMMA: Já de regresso a Portugal, mais propriamente à zona de Lisboa, continua a leccionar nos Salesianos do Estoril e é director pedagógico do Externato Zambeze e a Escola Princesa Isabel em Oeiras. Sabendo o carinho com que desempenhou as suas tarefas em todas, ainda tinha tempo para si?

GMA: Procurei ter, sobretudo para a família: na altura tínhamos duas crianças cuja educação era prioritária. Daí que tivessem estudado nos Salesianos do Estoril. Nos primeiros anos, além da profissionalização em exercício, aproveitei para fazer o mestrado em Ciências da Educação na Católica.

 

AMMA: Nos Salesianos do Estoril, como professor, o que o marcava mais? O estar de perto com os alunos, as nossas peças de teatro, as brincadeiras com figuras históricas… todos nós nos lembramos destes momentos divertidos que passamos consigo.

GMA: Falei há pouco do sistema preventivo. Era sugestão da direcção da escola que, na medida do possível, acompanhássemos os alunos nos recreios, jogando com eles. Esse convívio esbatia barreiras e era oportunidade para, como recomendava D. Bosco, termos conversas “ao ouvido” com um ou outro: evitavam-se problemas, arranjavam-se soluções. Para além disso, aproveitava os conhecimentos e a prática da música e do teatro, principalmente nas festas de Natal: conseguia que quatro turmas do preparatório actuassem em palco, numa espécie de opereta, contando a história do nascimento do Menino. Para mim, era mais uma estratégia para os “conquistar”.

 

AMMA: Aposentado do ensino, o seu neto Bernardo, a partir da Ilha do Pico nos Açores, lança-lhe um pedido de entrevista para fins escolares. Com o sucesso deste trabalho, nasce o “Australopiteco”. Este livro tem três fases. Para si, qual é que foi mais desafiante de desenvolver?

GMA: A minha predilecção vai para a época medieval em Tomar: imaginando cenários e personagens, a narrativa anda em torno da reconquista cristã e do papel de Afonso Henriques, Gualdim Paes e os seus Templários nessa época. Eu próprio tenho a convicção de que já vivi outra vida nesse século XII.

 

AMMA: Um ano depois está de novo a lançar outro livro, desta vez o “Bons Ventos…”. Fale-nos um pouco desta obra. Vem em linha do “Australopiteco”?

GMA: O segundo é muito diferente do anterior. Durante meia dúzia de anos passámos as férias de Verão em Espanha. Não só porque tínhamos um filho a jogar hóquei no Liceo da Corunha, como porque o país vizinho é riquíssimo em sítios do património mundial. Como professor de História, não havia melhor ocasião para os visitar demoradamente e recolher bibliografia em cada um. O “Bons Ventos…” é o relato pormenorizado desse percurso pelo património mundial de Espanha, de Norte a Sul.

AMMA: Se voltasse 40 ou 50 anos atrás, tendo a mesma oportunidade de ser professor, aceitava o desafio, ou preferia abraçar outra profissão?

GMA: Ponto prévio: em criança quis ser padre. A mãe apoiou, o pai nem por isso. Naquele tempo, depois da quarta classe só os filhos da classe média continuavam a estudar. Embora não fôssemos pobres, a solução para mim era o seminário, onde andei até aos 22 anos, altura em que resolvi mudar de vida. Fiz o serviço militar: primeiro na EPI de Mafra e, a seguir, em Lamego, no Centro de Operações Especiais. Fui mobilizado para Cabo Delgado no final da Operação Nó Górdio. Aqui chegados, a saída profissional a seguir foi o ensino: primeiro em Lourenço Marques e, no continente, em Abrantes e na Escola do Estoril entre 1976 e 2012, período durante o qual ajudei a instalar e a dirigir o Externato Zambeze e a Escola Princesa Isabel em Oeiras. Conclusão: o ensino foi sempre um propósito. Voltaria a fazer o mesmo.

 

AMMA: Numa geração em que estamos muito ligados à tecnologia digital, onde temos excesso de informação que temos a filtrar em canais dos quais a queremos receber, o que gostava de dizer aos alunos das idades que leccionou, entre os 10 aos 12 anos, sobre gerir a tecnologia de forma positiva, ler livros em papel e ter momentos de pausa didáticos da melhor forma?

GMA: A escola do Estoril foi pioneira na chamada escola virtual. Usava essa tecnologia em todas as aulas de História e nalgumas de Português. Os alunos gostavam. A esse propósito, lembro a prática da escola nos finais dos anos 90: a proibição do telemóvel durante as aulas e nos intervalos, assim como o controlo da indumentária dos alunos mais velhos, como agora algumas escolas (como o liceu Pedro Nunes) procuram fazer. Como é possível que adolescentes se apresentem nas aulas como se fossem para a praia? Será assim que irão para o primeiro emprego? Foi um desabafo. Voltando à sua pergunta, recomendava aos alunos a leitura de livros em papel. Há trinta anos, escolhia com eles livros de leitura obrigatória como os da colecção “Aventura” de Maria Magalhães e Isabel Alçada ou de Alice Vieira e outros de teatro e poesia. Como ensinava Português e História de Portugal, aproveitava para recomendar a leitura das Lendas e Narrativas de Alexandre Herculano, em particular os textos “Bispo Negro”, “O Alcaide de Santarém”, “A Abóboda” e “a Morte do Lidador”. Os alunos mostravam-se interessados: nas aulas de Português enriqueciam os conteúdos da nossa história medieval. Nessa linha, promovi a participação de 350 alunos de todos os ciclos no Campeonato Nacional de Língua Portuguesa, organizado pelo Expresso em 2007 e 2008.

 

AMMA: Uma coisa que nunca tive coragem de perguntar a um professor de português e como a mim lecionou história, sinto-me mais à vontade para o fazer. Quando vê os erros ortográficos e gramaticais na escrita do dia a dia, é uma frustração para vocês docentes, ou conseguem ler isso de outra forma?

GMA: As incorrecções ortográficas nos alunos (e nalguma comunicação social) resultam, a meu ver, do facilitismo com que essa matéria é tratada nas escolas desde o primeiro ciclo. Por alguma razão sou contra o novo acordo ortográfico que ignora as origens grega e latina da nossa língua e lança a confusão na mente dos alunos e dos adultos que sempre escreveram doutra maneira. Remédio? Fazer como noutros países da lusofonia: esquecer o acordo.

 

AMMA: Depois de “Australopiteco” e “Bons Ventos…”, já tem em preparação uma nova obra? Quer falar-nos um pouco dela, ou ainda está em fase de “segredo”?

GMA: Há outro livro que estou a ultimar para cumprir uma velha promessa de escrever uma trilogia. Só que “escrever” não me obriga a “publicar”. De resto, já escrevi o correspondente a cinco pequenas obras que nunca verão a luz do dia por diversas razões: se me comprometer com editoras, os custos não compensam nem tem havido mercado bastante para tantos autores novos que se estão a lançar. Escrevo porque gosto de ocupar assim o tempo. O produto final fica comigo. Quando morrer, os filhos farão dele o que quiserem.

 

AMMA: Uma palavra de incentivo a todos os podem escrever um “Australopiteco” seu, um livro que abranja uma parte biográfica, uma viagem no tempo e uma vivência num lugar de sonho… o que lhes diria?

GMA: Dêem lugar ao sonho! Se nos refugiarmos durante algumas horas no nosso canto e dermos asas à imaginação, por certo sentiremos uma paz que não tem preço.

 

AMMA: Uma mensagem final de professor aposentado, tendo agora uma visão mais global do ensino, desde o ponto de vista do aluno ao do professor, para os alunos que estão neste momento nas suas actividades lectivas e aos docentes que lhes mostram o caminho. O que lhes quer dizer?

GMA: Como escreveu António Gedeão, “O sonho comanda a vida”. A escola não se devia limitar a preparar cérebros; os alunos precisam de alguém que os faça sonhar com um futuro profissional em que sejam felizes, seja no desporto, nas artes, na ciência, na investigação, na defesa de causas humanitárias, na intervenção social e política e nas mais diversas profissões. Como dizia D. Bosco, preparemos “honestos cidadãos”.

 

Da minha parte pessoal, tenho a fazer-lhe um agradecimento especial por ter aceite fazer esta entrevista connosco, foi um prazer muito grande ter esta conversa com um professor meu, que me marcou muito positivamente na escola e à minha família também. As redes sociais também têm coisas boas e reencontrámo-nos lá após estes anos todos. Agradeço a oferta do exemplar do “Australopiteco” com a dedicatória, um excelente livro que aconselho todos a adquirir. Desejo-lhe que agora nesta fase da vida continue a escrever e a publicar livros desta qualidade.

 

Contacto do autor: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

Texto: Pedro MF Mestre

 

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segunda-feira, 15 de julho de 2024 – 15:47:37

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