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Bons olhos a vejam “Dona Muas”

Um dia escrevi, que considero um privilégio praticar Orientação no Parque Natural do Alvão, mas nem por sombras, com nevoeiro. Conclusão de cariz meteorológico, que adveio de uma prestação frustrante realizada há uns anos no mapa de Muas, debaixo de uma bruma “sebastianina” e que terminou com um doloroso “mp” no penúltimo ponto, ao não conseguir enxergar uma árvore (provavelmente a única daquela zona). Cena que me tem atormentado o espírito, ao longo destes últimos anos, pois nunca mais me foi dada a hipótese de desforra.

Finalmente o Orimarão fez-me a vontade, ao apresentar este mítico mapa, na primeira etapa do Portugal O`Summer. Ora aí estava uma soberba oportunidade, de repor a verdade dos factos…ou não.

Não dispunha de margem para mais desculpas climatéricas. O sol exibia-se radioso, realçando o cinzento das “pedrolas”, que se espraiavam a perder de vista, demonstrando todo o seu esplendor e potencial agrestia. Cenário magnífico de impor respeito e a provocar um friozinho na espinhela, só que hoje não era dia para mariquices. Desta vez o confronto decorreria sob o signo da lealdade – olhos nos olhos.

Antes de iniciar a minha cruzada contra as “pedrolas”, alcandorei-me a uma delas e mirei-as bem de frente, pormenor que me foi vedado no anterior encontro, tal era a densidade da neblina. Afinal, eu ainda não tinha o prazer de conhecer pessoalmente “Dona Muas”. O poder que emanava daquele manancial xistoso, que tanto me obcecava, não se poderia esconder novamente. E foi no meio e em cima delas (para mostrar quem manda), que me mentalizei para a árdua tarefa que se seguiria.

Possuiria eu capacidade para me desenvencilhar dos 3.800 metros e 18 controlos de forma eficaz? Sempre seriam quase 200 de desnível e os fantasmas do passado poder-me-iam atormentar. Conseguiria ultrapassar o trauma das famigeradas “pedrolas” de Muas? Com visibilidade a cem por cento, a “istória” teria um argumento diferente?

As coisas nem arrancaram bem, porquanto uma traiçoeira pré-partida de quinze minutos, quase me penalizava a partida real. Uns desacertos de relógios entre os dois locais, mais um tempo de percurso mal avaliado, colocaram muita gente em stress desnecessário. Como sou um rapaz precavido e vou de véspera para as partidas, tudo não passou de um “sustozito”, que serviu para acelerar a pulsação sem necessidade de aquecimento.

De imediato, o percurso apresentou uma curiosidade. A primeira pernada obrigava a uma inversão de marcha, cujo trajecto enfiava pela área das partidas. Para evitar algum tropeção com quem saísse a seguir, optei por um trilho ao lado, no entanto, achei este pormenor engraçado e até confesso, que desconhecia ser possível em termos de regulamento, um traçado deste género (aprender até morrer).

O ponto que abria as hostilidades, colocado numa pedrita de uma extensa área aberta, no sopé da encosta da estrada, obrigou-me a deslizar vertiginosamente, que por pouco não travava em cima dum monte de carqueja. As minhas “molas” são de tal maneira frágeis (deterioradas?), que um dos joelhos ficou queixoso pelo excesso de pulos, para o resto do percurso.

A uma radical descida, sucedeu uma imponente subida, para me derrear o resto das articulações. Várias curvas de nível para atacar o “106”, numa progressão “alpina” e consequentemente extenuante (para mim, porque o Diogo trepou com uma ligeireza, que nem cabrito do monte, hehe!). Um par de pontos tecnicamente acessíveis, moralizadores, mas que deram o mote para o desgaste a que iria estar sujeito.

Voltei a descer para completar o trio de balizas inicial, antes de regressar à parte norte do mapa, facto que me preocupou, pois quanto mais baixasse, maiores seriam os trabalhos para me deslocar pelo “pedrame” acima. Ao fim de doze minutos de “carrossel”, já me sentia enjoado, mas a dura labuta com as “pedrolas” ainda nem tinha começado (tudo se desenrolava demasiado certinho).

A pernada para o ponto 4, não obstante a sua extensão (500 mts), parecia ser de “pampa”, dado que o meu destino se localizava em frente ao caminho das pré-partidas. Mal cheguei à zona, uma floresta sombria, de fraca visibilidade (a contrastar com a área aberta donde tinha saído) e pejada de pedregulhos, tive o pressentimento de que “Dona Muas” me tinha armado uma cilada. Precisava de encontrar com urgência, uma falésia na confusão de “mil seiscentas e oitenta e três pedrolas” camufladas…e todas gémeas!

Desesperado, agarro-me ao mapa, só que naquela amálgama “negra”, as minhas vistas curtas não me possibilitaram destrinçar se tinha de subir ou descer (o contrário não teria graça). Como me encontrava a meia encosta, resolvi atascar e indagar as partes lisas da vizinhança (as ditas falésias), mas para mal dos meus pecados, o primeiro prisma que avisto nem era meu.

Após quatro minutos de busca incansável, solitária e saltitante (de pedra em pedra), surge de repente um comboio “feminino”, transportando mais de uma mão cheia de elementos, onde por acaso seguia gente de gabarito e com destino ao requisitado “131”. Não posso ter sempre azar, não é? (se tivessem aparecido mais cedo…hehe!) Mas também vos digo, se o malandro fosse bicho, tinha-me dado uma “chinca”, tão perto eu estava dele.

Um contratempo que não me beliscou a confiança (estou vacinado), tendo controlado a baliza seguinte nas calmas, dando continuidade ao meu novo relacionamento com “Dona Muas”. Todavia, qualquer relação que se preze, é composta de altos e baixos e naquele momento iria ser posta à prova. O sexto ponto situava-se no altaneiro topo de uma linha de água, uns íngremes cem metros, por entre pedra e mato, que me custaram a escalar 9:05, o tempo que despendi no total da empreitada. Não sei se haveria melhor opção (talvez de teleférico), mas esta foi bem enérgica e transpirada.

Durante a ascensão, descortinei um “laranjinha” na outra encosta, no meio de dois penedos e vá-se lá saber porquê, decidi que esse deveria ser o meu próximo (tinham o mesmo elemento?). Mal piquei o anterior, abstraindo-me completamente do mapa e sem um pingo de raciocínio, dirigi-me como um robot para as tais pedras, que distavam umas escassas dezenas de metros. Claro que foi asneira da grossa. Eram pedras sim senhor, mas não pertenciam ao meu percurso (olhem a admiração).

Não contente com a imbecilidade, ainda resolvi pastar por aquelas bandas, porventura à espera de algum milagre, antes de recuar e utilizar aquele papel plastificado com desenhos coloridos, que segurava na mão (uops! Então não perdi o mapa?). E assim, de azimute fresco na ponta do “chip”, demorei dois minutos a picar o ponto. O problema foi os outros dez de devaneio, que já constavam no meu portfólio.

Faltavam onze pontos e o cronómetro já apontava uns incríveis 53 minutos de luta com as “pedrolas”, que superavam largamente o tempo gasto no final, pelos ases do meu escalão (cada um tem aquilo que merece). Com a saída da floresta, o ambiente desanuviou e rumei novamente ao encontro do imenso cinzento, precisamente para os terrenos que me deixaram tão má memória. Aqui sim, o combate não seria desigual, em virtude de as pedras se apresentarem nuas e sem protecção, contando apenas com o relevo como seu aliado.

- “Agora é que vão ser elas, Dona Muas!”. Francamente motivado, abstraindo-me das pastorícias realizadas, atirei-me para a pedreira como um “berdadeiro”, esperando que o Santo Padroeiro dos Orientistas estivesse de olho em mim. E não é, que ele se manteve vigilante e atento às minhas deambulações? Estou convicto, que para dar com o paradeiro de tanto calhau, só mesmo com auxílio divino.

Visivelmente fatigado, com os joelhos a ranger, evitando algum trambolhão fortuito, efectuei as várias pernadas em ritmo de “bode velho”, que pelo menos teve o condão, de não permitir que cometesse mais nenhuma tolice. Bem, ainda confundi a reentrância do ponto 12, mas nesse caso fui vítima de más influências, hehe!

Ao fim de mais 44 minutos, o principal objectivo que levava para a prova, foi cumprido integralmente. As “pedrolas” de Muas, afinal, não eram imbatíveis. O meu arreigado pesadelo orientista, havia sido extirpado de modo definitivo, mas receio que esta odisseia me tenha molestado o juízo, pois devo reconhecer, que o mapa até me caiu no goto. Embora, no que à vertente competitiva diz respeito, se ter percebido o óbvio: o “berdadeiro” não tem emenda.
 

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quinta-feira, 13 de agosto de 2020 – 03:18:11

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