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A sete pés

No decorrer das duas horas e vinte minutos que estive enclausurado no Forte de Peniche, enquanto aguardava em quarentena a partida para o Campeonato Nacional de Sprint, deu-me uma alucinação e tive o desplante de me comparar, com algumas figuras políticas da nossa história recente, que aqui penaram vários anos. Se eu em tão pouco tempo, já sofria de neura com a claustrofobia, que terão sentido esses reclusos, depois de longos períodos de cativeiro e maus tratos?

A necessidade imperiosa de fugir dali a sete pés.

No meu caso, a ansiedade da espera quase dava comigo em doido. Mais de quinhentos atletas retidos, num constante corrupio de aquecimento, com saída a conta-gotas em direcção às partidas, que por acaso se avistavam das muralhas, assim como o ponto de espectadores e chegadas, criavam um frenesim interior, difícil de controlar. Sobretudo para quem tinha, como eu, um dos últimos tempos de partida (o sétimo a contar do final).

Que raio poderia eu fazer para me entreter? Tirar umas fotos naquele ambiente magnífico? Uops! Esqueci-me da máquina. Aproveitar a borla e visitar o museu? Nah! Não estava mentalizado e já o conhecia. Verter umas “águinhas”? – “Outra vez? Sofres da próstata?” – Ir aquecendo o físico? Hum…o mais provável seria cansar-me.

O que eu precisava mesmo…mesmo…era sair daquele local…a sete pés…de preferência. Olho para o relógio…ainda falta uma eternidade. Resolvi sentar-me e bater uma sorninha. Qual quê! O meu recorde de quietude não atingia os trinta segundos. Demasiados “bichinhos-carpinteiros” a importunar-me.

Então entrei numa desgastante rotina de prisioneiro. Observar o mar de um lado…e do outro…o areal da Consolação bem ao longe. Mais um dedo de conversa com um parceiro de “cela”. Assistir a mais umas partidas, uns quantos a passar no ponto de espectadores (viram todos à esquerda, hehe!). Olha, a minha mulher toda fresca – “Força Cláudia!” – grito entusiasmado do alto do minarete (não me ouviu...).

Momentos depois ela terminava (com ar de quem iria arrebatar um terceiro lugar) e eu com mais quarenta e cinco minutos de tortura para gerir. Pregado à muralha, ia-me roendo de inveja, ao reparar que o pessoal já andava de “bejeca” na mão e palito ao canto da boca, a arrastar os “chanatos”. Grrr…que raiva. Eles no “bem-bom”, aqui o rapaz todo transpirado…de stress.

Finalmente, aproximava-se a hora da evasão. Convinha aquecer os “motores”, para poder arrancar logo em velocidade. O percurso era bastante curto (2.000 metros e 12 pontos), podia correr o risco de só encontrar o ritmo de “cruzeiro”, quando estivesse a terminar. Facto de todo desaconselhável.

Pi…pi…pi…11,40. Yes!!! Acabou o suplício. Estou livre! Arranquei para as partidas com sofreguidão. Queria iniciar o sprint o mais depressa possível. Peguei no mapa com os níveis de adrenalina nos píncaros e mal chego ao triângulo…STOP! Várias opções para a primeira pernada, obrigaram-me a parar uns segundos, respirar fundo, acalmar os “cavalos” e ala estrada acima, que se faz tarde. Uma rampa pouco pronunciada, mas o suficiente para me cansar, pormenor que até foi positivo, para estabilizar o espírito.

Tentei manter um ritmo certo, sem hesitações, pois sabia que um dos líderes do meu escalão me perseguia e pretendia adiar ao máximo a inevitável (quanto frustrante) ultrapassagem, que eu tinha em mente poder acontecer depois do quinto ponto. Porém, a situação não se passou como eu idealizara.

Talvez porque os dois primeiros pontos fossem a subir, ou a hesitação inicial tenha sido exagerada, ou simplesmente o homem se despacha muito mais rápido do que eu, o certo é que mal piquei a árvore do quarto ponto, senti o seu bafo nas minhas costas (salvo seja!). Apesar de estar a realizar uma prova razoável, ele não me deu hipótese e deitou por terra os meus planos. As diferenças de andamento são por demais evidentes. Paciência.

Dobrado, mas não quebrado, resignei-me e deitei para trás das costas a contrariedade, continuei no meu passo de “berdadeiro” e quando me aproximo para controlar o quinto ponto, ao virar uma esquina, o tipo já me fugia a sete pés, a mais de trinta metros. Nem em sonhos me passou pela cabeça, que o voltasse a ver antes da meta.

No entanto, a Orientação caracteriza-se por ser uma permanente “caixa de surpresas”. No momento em que me apresto para controlar a oitava baliza, surge-me do lado oposto, a resmungar, o campeão que me havia apanhado quatro pernadas atrás. Até dei um salto com a surpresa.

Ok! O percurso estava-me a correr bem, mas daí a ter conseguido recuperar toda aquela desvantagem, só um milagre…ou grande atascanço do Zé. O mais natural, seria ele ultrapassar-me novamente, só que isso não aconteceu de imediato e provavelmente por duas razões. Primeira (a da imagem), como o ponto seguinte era o dos espectadores, zarpei a sete pés (tipo sprint para o show off), que mesmo para um velocista como ele, não seria fácil apanhar-me. Segunda (a equívoca), pressenti que ele deu com o ponto por acaso, o que significava que vinha com uma ligeira desorientação, tendo por isso de aproveitar a boleia do “berdadeiro”.

Claro, que mal picámos o ponto, saiu que nem um foguete, não me permitindo qualquer veleidade em seguir na sua peugada. Percebi que acelerou, com o intuito de realizar uma ponta final de raiva, o que se traduziu em me ganhar mais vinte e sete segundos, nos derradeiros três pontos (é justo). Para ele, terá sido uma das suas piores provas. Para o “berdadeiro”, foi sem dúvida nenhuma, uma das mais conseguidas. É uma mera questão de perspectiva.

O fim de semana revelou-se delicioso. Efectuei duas provas acima da média; a Organização do ATV declarou-se de bom nível (atendendo a que são tão poucos…mas eficientes); o meu clube viu subir ao pódio um número apreciável de atletas (a minha “cara metade” foi lá duas vezes, o que me começa a causar séria preocupação) e os “caracóis” de sábado estavam excelentes.
 

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quinta-feira, 13 de agosto de 2020 – 02:04:17

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