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Ferrel verdejante

Agora compreendo, a necessidade de certa gente da escrita, de apelar às suas musas. Nem sempre um tipo sente inspiração para passar ao “papel”, aquilo que lhe vai na alma. Pessoalmente, não sou um grande criador. Uma pontinha de ficção aqui ou ali, mas no essencial relato as minhas vivências e não comportamentos a fingir de orientista.

Lá dizia um companheiro destas lides, evidenciando o seu tom irónico – “os teus textos são mais interessantes, quando as coisas te correm mal”. Ai tenho de me atascar, cair, virar mapas ao contrário, seguir azimutes em curva ou pastar valentemente como um “berdadeiro”, para valorizarem as minhas desditas? Ora que grande amigo eu arranjei. Direi mesmo, um autêntico “amigo de Peniche”.


Pois bem, foi precisamente para a terra destes “amigos” que me desloquei, para obter alguma inspiração. Nada viria mais a calhar do que um Campeonato Nacional de Distância Média, nas matas de Ferrel, a norte de Peniche, para congeminar um belo argumento, que desse continuidade às “istórias” do “berdadeiro orientista”. Zona usada há uns três anos pelo “espécie” (com enorme sucesso, por sinal), numa “terapia de choque”*, a uma pasmaceira que o tinha assolado.

Segundo as minhas reminiscências e informações mais recentes, a principal característica deste mapa centrava-se nas suas imensas áreas verdejantes, consequência natural de vegetação indisciplinada, que potenciavam problemas técnicos e, provavelmente físicos, a todos aqueles que as não interpretassem de forma acertada.

Imaginei que os verdes me iriam dar cabo do juízo, como é usual, obrigando-me a inventar opções estapafúrdias, originando frequentemente resultados, que quase me levam à depressão (a dos nervos, não a prima côncava da cota). No entanto, acompanhava-me a secreta esperança, de que o traçador dos amigos do ATV não fosse de Peniche.

Tenho pena de desiludir os mais acérrimos seguidores do “berdadeiro”, porque contrariando os prognósticos fatalistas, a minha prestação foi demasiada equilibrada e racional, não me fornecendo grandes episódios com substrato. Não deduzam destas minhas palavras, que por obra e graça do Santo Padroeiro dos Orientistas, me tenha coberto de glória, porque é uma falsa ideia. Apenas me desenrasquei melhor que a maioria das vezes. Já enjoava tanta aselhice.

O trajecto que nos levava da pré-partida até ao local das partidas reais, percorrendo um trilho sombrio e de aspecto “selvático”, deu para causar alguma apreensão. Aperceberam-se do silêncio sepulcral que se fazia sentir? (finalmente cumpriu-se o regulamento, xiu!) A mim até me provocou soluços com o susto (ou seria da vontade de fazer xixi?). Um dia de sol tão bonito e nós no meio das “trevas” verdejantes de acácias. Cenário ideal para nos concentrarmos e evocar as divindades:

Ó musas da fugidia inspiração,
Faunos das florestas de Ferrel.
Orientai-me na verdejante missão,
De controlar a média sem tropel.

Mas como referi, tudo não passou de um leve susto. A partir do triângulo, voltou a normalidade solar e lá me embrenhei na floresta, à cata dos meus 22 prismas, que se encontravam dispersos por 4.100 metros de percurso.

Repararam que mencionei os “meus” prismas? Por acaso entrei bem na prova, mas na pernada para a reentrância do terceiro ponto, esqueci-me desse pormenor relevante, não resisti à tentação de espreitar um prisma alheio e confrontei-me com um justo castigo. Em vez dos dois minutos e meio ou três de progressão, enfardei com verdes durante 7,53!

- “Com que então não há episódios para contar, hem?” – perguntam vocês.

Não sou da mesma opinião. Reconheço a demora, assumo o erro e até um momento de aflição, mas como nunca me afastei mais de cinquenta metros do “meu laranjinha”, quase acreditaria que foi um pastanço propositado, para não defraudar expectativas e evitar que viesse para aqui vangloriar-me de uma “prova limpa”, pois toda a gente sabe que isso não existe. Os radicais poderiam considerar essa afirmação um sacrilégio.

Na verdade e para confirmar a tal excepção da regra, não voltei a cometer mais nenhum deslize técnico. Parece mentira, não é? Pois fiquem sabendo, que o “berdadeiro” esteve ao seu pior nível (leram bem), realizou algumas pernadas para encaixilhar e outras dignas de fazerem parte de compêndios sobre a arte de bem nevegar, tal a certeza com que piquei os pontos.

Performance assustadora e simultaneamente memorável. Terei sido eu? Nem sequer usufruí das providenciais “ajudas” do costume, na maioria dos pontos. E mais, não tenho qualquer parentesco com o Luís Sérgio, apenas me identifiquei com o seu traço. Eu que sou um “encarnado” declarado, andei constantemente de braço dado com os “verdalhos”, contornado-os, furando-os ou pura e simplesmente ignorando-os. Umas progressões de luxo! Simplesmente inacreditável.

E tornam os meus amigos a questionar - “Se o percurso correu assim tão bem, porque é que a tua classificação não o reflecte?” – Irra! Parecem o “mister” do meu clube.

Não brinquem comigo. Já me viram a correr? Conhecem a qualidade dos meus companheiros de luta? Perder entre meio e um minuto por ponto, é muito bom. O problema é terem sido vinte e dois, hehe! Esqueçam, faça eu o que fizer, eles são mesmo melhores, só me resta atenuar os prejuízos…e é um pau.



*“Uma Espécie de Orientista – Terapia de choque no Oeste (I) e (II)” 

Periodicidade Diária

quinta-feira, 13 de agosto de 2020 – 02:18:40

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