14 anos ao serviço do Desporto em Portugal

publicidade

 

Provas pouco locais

Assumo publicamente, que sou contra a proliferação de provas ditas locais, no calendário nacional da Orientação Pedestre. Se há uns anos, não havia grande oferta de eventos de cariz popular, onde um tipo pudesse experimentar a arte dos prismas e bússolas, sem grandes formalismos, actualmente o que não faltam são “brincadeiras” orientistas (verdadeira overdose).

Analisando o calendário, as provas locais pontificam em grande maioria, relegando para plano secundário, as dezasseis competições oficiais da actual época. Concordo que esteja subjacente a estas iniciativas, um claro objectivo de divulgação e promoção, mas é necessário ter cuidado com o género de organização que se apresenta – pode o tiro sair pela culatra. E nunca esquecer, o que é demais é moléstia

Já estive presente em provas deste tipo, que mais pareciam treinos…e mal preparados. Inexistência de apoio logístico, utilização de fitas no lugar de prismas, uso de alicate em detrimento de SI, ausência de controlo de tempos, não publicação de resultados, fotocópias de mapas com escalas desajustadas, etc. No fundo, alguma falta de dignidade, que transmite a quem chega pela primeira vez à modalidade, uma desmotivação imediata. E daí a fraca afluência de inscritos, que se tem assistido nos últimos tempos e simultaneamente a dificuldade na angariação de patrocínios. Ninguém investe em provas, com a participação de meia dúzia de “mal vestidos” (então nos tempos que correm).

Pelo contrário, participei noutras, que bem podiam ser consideradas como provas de Taça e que me deixou tão satisfeito como se efectivamente o fossem. Por isso, julgo que não serei criticado, se assumir o meu orgulho clubista, por ter o privilégio de ser um dos elementos da Organização da 7ª edição do Troféu de Orientação do Porto e do III Justlog Park Race.

Duas provas locais, que decorreram no mesmo fim-de-semana, a primeira no Parque da Cidade e a segunda, na Quinta de Sto. Inácio em Vila Nova de Gaia, ambas apresentando percursos para Orientação de Precisão. Não pretendendo dar opinião em causa própria, ouso afirmar sem qualquer rebuço, que as provas estavam catalogadas de locais…mas pouco.

Definitivamente, o GD4C não brinca em serviço. Tanto nos empenhamos na organização de um POM, como numa actividade orientista de nível menor. A nossa intenção é que os participantes se sintam satisfeitos e com vontade de voltar. A Orientação e o próprio Clube só têm a ganhar. De outra forma, transmite-se falta de seriedade e o consequente descrédito.

Se houver alguém, das 600 almas que marcaram presença no Porto, ou dos 130 heróis que desafiaram a chuva em Gaia, que tenha alguma crítica a fazer, só posso aceitá-la se proclamarem uma frase do género – “soube a pouco!”. Tudo o que for para além disso é pura maledicência, hehe! Hoje estou de uma modéstia sem limites.

O Parque da Cidade do Porto é um local de eleição para este género de iniciativas. Bem localizado, de ambiente aprazível, dispondo de uma área de características variadas, tanto possibilitando um exigente treino aos elites, como percursos acessíveis aos principiantes. Se o traçador for de qualidade, o que era o caso, então toda a gente acaba a sua prova, com um sorriso de orelha a orelha.

Apesar da participação de alguns atletas consagrados, o grosso dos números era composto por largas centenas de miúdos do Desporto Escolar e imensos grupos de promoção, a maior parte em processo de descoberta do fantástico mundo dos “laranjinhas”.

Reconheço que a irreverência da juventude provoca alguma confusão, quase a roçar a indisciplina, mas também são eles que conferem uma atmosfera de festa, sempre necessária a provas desta natureza. No entanto, nada que uma boa dose de paciência, não ajude a ultrapassar (uff! Ainda estou a sofrer a ressaca dos calmantes). Que seja tudo a bem da modalidade.

Um comentário de apreço ao voluntarioso grupo de atletas de mobilidade reduzida e respectivos acompanhantes, que com a sua exemplar participação, vincaram a mensagem de solidariedade que nos une - “todos diferentes, todos iguais”.

Ainda conservo na retina, a espectacular imagem da partida em massa dos escalões “difícil”, onde se viriam a destacar os favoritos Joaquim Sousa e Andreia Silva, que não deixando os seus créditos em azimutes alheios, venceram categoricamente, sem contemplações pela concorrência. Aqui convém realçar o facto, de que todos dispunham de percursos diferentes (a existência de seis “loops” ajudou). Nada menos que sessenta e oito mapas! Preciosismos técnicos de quem não consegue fazer as coisas com ligeireza. Para prova local, não está mal, pois não?

E o speaker? E as casas de banho móveis? E uma Arena engalanada com todos os requisitos? E a quantidade de monitores disponíveis? E a presença da rádio NFM? Somos uns mãos largas. Não queremos que falte nada à rapaziada, mesmo que seja só para uma “brincadeira”. Escusam de nos agradecer, é a nossa obrigação.

No dia seguinte (por sinal o do Trabalhador), debaixo de chuva intensa, rumamos de armas e bagagens para a margem sul do Douro, de encontro a um cenário mais que improvável, para se disputar uma prova de Orientação – o zoo e parque da Quinta de Sto. Inácio, em Avintes. Mais um privilégio que foi concedido à família orientista, que já não tinha autorização para o franquear desde 2003.

Um local de partidas admirável, porta de entrada para um parque de jardins labirínticos e ornamentais, duas áreas de floresta de vegetação diferente, onde predominam plantas de outras latitudes, uma quantidade enorme de caminhos, serpenteando por entre zonas de animais exóticos, quase dá a sensação de estarmos a percorrer paragens tropicais. Um belo mapa para desfrutar, bem ao jeito dos “pastores”, não permitindo a mais ligeira desconcentração.

E podem crer, que motivos para nos distrair não faltavam. O corvo que cumprimentava os passantes com um rouco “olá”, a hiena que nos sorria com o seu esgar enganador, os lémures que solicitavam companhia e guloseimas, o pavão a ostentar a sua bela plumagem, os lamas frenéticos de curiosidade com a azáfama colorida, a estática iguana que protegia o ponto “43” ou os abutres que observavam com desdém e frustração, as “vítimas” que corriam cheias de saúde. Apenas não foi possível colocar um prisma no “borboletário”, seria a cereja no topo do bolo.

Enfim, um espaço paradisíaco, esplêndido para visitar nas calmas, não para andar em stress a perseguir balizas. Uma maldade do GD4C, que foi penitenciada com a possibilidade de após a prova, todos os participantes poderem ingressar no Zoo, usufruindo de um desconto de cinquenta por cento. Deste modo, ninguém terá ficado com água na boca.

Não obstante, oferecermos mais uma prova de excelente nível, quiçá até demasiado elevado para o que se exigia, a afluência de inscritos foi bastante baixa. O receio das bátegas de água que iam caindo, o dia ser dedicado às mamãs e as cerimónias da queima das fitas na “Invicta”, talvez tenham afugentado potenciais concorrentes…talvez. Desconhecem que perderam a oportunidade de enriquecer o seu portfólio orientista, com um percurso original, digno de um documentário do National Geographic.

Pessoalmente, dediquei-me a acompanhar os repórteres da Localvisão, que realizaram mais um excepcional filme, indicando-lhes alguns dos pontos de maior interesse, tendo o cuidado para que eles não se desorientassem no emaranhado de voltas e voltinhas ou não se deixassem apanhar por um macaco-aranha mais travesso. Portanto, já ficam a saber, se nos créditos do filme não aparecer o “berdadeiro” orientista, na função de ama-seca, só pode ser por esquecimento ou mau agradecimento da produtora. 
 

Periodicidade Diária

sábado, 15 de agosto de 2020 – 14:25:50

Pesquisar

Como comprar fotos

publicidade

Atenção! Este portal usa cookies. Ao continuar a utilizar o portal concorda com o uso de cookies. Saber mais...