Abertura em velocidade (I)

Por mais que procurasse, só encontrava excelentes justificações para não me deslocar a Coruche, à prova de estreia da nova época. Tanto eu como a minha mulher apanhámos uma daquelas gripes de caixão à cova, a fazer lembrar a terrível ”A”. Por esse motivo e mais uns quantos, que me recuso a confessar, treinámos pouco ou quase nada. O que por sua vez e atendendo ao período por que passámos, com ingestão indisciplinada de calorias natalícias, teve um reflexo negativo e algo deprimente na balança lá de casa. Para completar o ramalhete, a meteorologia não augurava nada de bom.

Adoentados, mal preparados, gordos, preguiçosos e sujeitos a uma forte intempérie, que raio havíamos de ir fazer para as terras ribatejanas do Sorraia? Figuras tristes com certeza. Nessa altura, ao recordar a agradável zona fluvial de Coruche e a sua extensa lezíria, comecei a pensar de forma diferente. E não só…

Afinal onde pára a minha exacerbada paixão pela modalidade? Facto que tanto gosto de apregoar. Na verdade e analisadas as coisas por outro prisma, nem me faltavam motivos para estar presente. Ao consultar as informações técnicas, rapidamente me apercebi de que os mapas não configuravam grandes dificuldades. Não existiam “pedrolas” para me afligir, o desnível era suave, as distâncias equilibradas e o único pormenor a ter em consideração, seria a hipótese mais que provável, de estarmos perante uma vertiginosa prova de corta mato, com uns prismas intermédios para controlar. Ou seja, louca correria em perspectiva.

Depois, chamou-me a atenção o toque internacional do evento. E não me refiro aos atletas estrangeiros inscritos. Para os mais distraídos, devo recordar que a prova se designava de “Coruche Orienteering Trophy”, o que para um tipo da província (que troca os “vês” pelos “bês”) e que nunca pôs os pés num “trophy”, não deveria perder a oportunidade de marcar o ponto numa competição tão anglófona, que porventura até me poderia enriquecer o curriculum e elevar o status. Achei curiosa a escolha, mas prestando melhor atenção à denominação dos nossos anfitriões, Coruche Outdoor Adventure Club, já compreendo o estrangeirismo aplicado.

Acresce ainda a circunstância, de que tinha concorrido ao passatempo proposto pela Organização e não seria de bom tom primar pela ausência, caso resolvessem optar pela minha frase. - “Se não pensavas ir, porque concorreste?”. Pois, vá-se lá saber…a paixão falou mais alto.

Pesando os prós e contras, ficou decidido que tomaria parte na “opening” da nova temporada (fui contagiado pelo ambiente british). O problema era se ainda me lembraria dos azimutes e das curvas de nível, porque setenta dias sem competição, de certeza deixam mossa em qualquer orientista, ora num “berdadeiro” nem é bom falar. Sentia-me perro e pesado, mas socorri-me da inspiração, para pelo menos aliviar a alma.

 
Meu carente e magoado coração,
 
Tanto hás sofrido, de arredio;
 
Eis, que o milagre da Orientação,
 
Brotou um amor, em eterno desafio.


Perante esta quadra simples, com um significado muito pessoal, o júri teve a gentileza (e o bom gosto, hehe) de me atribuir o terceiro lugar, que reparti com enorme prazer, com um senhor da orientação, o cartógrafo e atleta do ATV, Luís Sérgio.

Esqueçamos os lirismos e passemos a cenas mais práticas. O mapa da distância média na Herdade da Sesmaria-Lamarosa aguardava-me, com os seus 3.700 metros, 16 controlos e 150 de desnível. Enfim, números pouco ambiciosos, para um escalão onde pontificam uma mão cheia de verdadeiros ases das florestas, mas que sinceramente, para mim se adequavam às mil maravilhas. Já tenho a minha conta de percursos, apresentando um nível francamente exagerado.

Imaginava que teria de correr depressa e bem, só desconhecia que resposta o meu corpo daria a essa solicitação. Ainda sofria os efeitos dos disparates do bolo-rei e parentes e infelizmente, logo na primeira pernada, temi que iria ser sua vítima.

Entrei com demasiado à vontade e desconcentrado, para um ponto de limite de vegetação a escassos metros de uma vedação, nem olhei para a bússola e quando “bato” nos arames, encontrava-me desviado mais de duzentos metros. Ao relocalizar-me, vislumbro um outro prisma, não resisti a espreitá-lo, para constatar a minha suspeita – não me dizia respeito. Logo no início de prova, desbaratar três minutos desta forma, fez-me temer que se iria seguir um pesadelo dos antigos.

No entanto, tenho uma rara novidade para vos dar. Houve rebate falso. Por mais incrível que pareça, este foi o único erro relevante que cometi. Também reconheço que o contrário seria uma vergonha, porque a exigência técnica não foi nada complicada. As reentrâncias, esporões e falésias que me foram aparecendo, pertenciam todas ao meu percurso, o que nem sempre acontece.

As minhas perdas resumiram-se à diferença de andamentos, dado que o terreno propiciava altas velocidades. Mau grado a vontade demonstrada e o atino moralizador nos azimutes, fui penalizando largos segundos em cada pernada, que multiplicados pelas dezasseis, resultaram em quase quinze minutos a mais que o líder do escalão. Julgo que o malandro supersónico do Albano, nem a controlar as balizas parou, hehe! (24,53 é um desaforo)

Fiz das tripas coração, suei as estopinhas, corri como um “berdadeiro” desalmado, mas contra os meus bólides, não disponho de qualquer argumento, não obstante ter inscrito o meu sprint final a azul (leram bem, hehe!). Contrariamente ao que é habitual, alcancei uma pontuação razoável, posicionando-me longe dos lugares do fundo da tabela, podendo este resultado ser incluído no capítulo dos grandes êxitos do “berdadeiro”. Sem querer entrar em exageros, estou convencido de que já efectuei sprints mais lentos.

Mentalizei-me de que não gosto de correr, mas tem sido nas provas mais rápidas que consigo as melhores performances. Isto baralha-me de tal maneira os conceitos, que estou a pensar em recorrer a um conselheiro orientista, não vá a minha relação com a corrida se ter alterado. Apenas encontro uma justificação plausível para o sucedido; provavelmente os meus companheiros, durante o defeso, ainda engordaram mais do que eu. Os gulosos! 

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