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Temendo o pior (I)

Há muito que havia decidido estar presente em Brasfemes, na vizinhança da contestada cimenteira de Souselas, de modo a participar no encerramento oficial da ultra-longa época 2009/2010, aproveitando uma prova organizada pelo grupo de trabalho das selecções, que escolheu a didáctica designação de “I Troféu Crescer Como Grupo.”

Não queria faltar a este encontro por motivo nenhum, pois só voltaria a ter ensejo de pegar num mapa, dali a mais de dois meses, o que levaria a correr o risco de a bússola enferrujar ou os bolores me atacarem o material desportivo (musculatura incluída). Quanto menor for a paragem melhor.

Contrariando os meus melhores anseios, receio bem que os dois meses de interregno não sejam tempo suficiente, para me fazer recuperar a psique, abalada por certas contrariedades de que fui alvo. Começo até a temer o pior. Desde logo, o dia amanheceu francamente cinzento, debaixo de forte temporal, que deveria ser motivo para inibir a rapaziada, mas à hora marcada a maioria compareceu (quatrocentos viciados) e a chuva fez o favor de nos conceder uma ligeira trégua.

A prova que constava de duas etapas, uma de manhã e outra a meio da tarde, causou-me alguma apreensão, quando me informei que o primeiro percurso teria 6.200 metros, com um assustador desnível de 300, a que se seguiria uma segunda ronda, apresentando uns razoáveis 4.700 metros. Ou muito me enganava, ou a tarefa não iria ser nada leve. Para uma jornada dupla, não seria quilómetro e declive em excesso? A Organização distraiu-se, a prova destinava-se especialmente a Elites ou o mapa não teria assunto?

Depois, o facto de as partidas se efectuarem quase até às 17,30, pressupunha a inevitabilidade de alguns terminarem de noite…ou não. Esqueceram-se que os dias são curtos ou a ideia era mesmo colocar o pessoal a experimentar uma original técnica de navegação, a orientação de morcego? Ora, como sou um moço sortudo, apanhei com um tempo de saída a roçar a lanterna vermelha, que é como quem diz – partida ao lusco-fusco. Para quem não se tinha munido de frontal, era bem capaz de vir a ter problemas na área da luminotecnia.

Quando progredia para a baliza 4 da etapa matinal, na procura da minha primeira reentrância do dia, ia confirmando que o mapa provavelmente iria ser interessante e de dificuldade elevada. Mas nessa altura, quando fui obrigado a descer a um buraco para picar o ponto, ainda não me passava pela cabeça, que a cena se iria repetir demasiadas vezes.

Numa zona polvilhada de reentrâncias profundas de piso pouco consistente (resultante da erosão das águas), semelhantes a desfiladeiros, com ravinas de transposição difícil e até perigosas, os pontos foram sendo colocados em locais que desafiavam a agilidade e coragem dos atletas. Ao fim de quatro controlos idênticos, aliados a progressões complicadas, hesitei e alucinei: – “Estou na prova errada, isto não é orientação, é pura aventura e eu infelizmente não trouxe o equipamento de rapel ou slide”.

Sempre que abordava um desses controlos, perdia quase mais tempo a equacionar a forma de lá chegar sem me estatelar, do que aquele que tinha despendido durante a pernada. O prisma a olhar para mim e eu sem lhe poder tocar. – “Desço pela esquerda ou pela direita? Vou de costas ou de frente? Aonde me agarro? Que se dane…mergulho de cabeça”. Autênticos actos acrobáticos, de fazer inveja a muito artista circense.

Para controlar o décimo ponto (“180”), uma falésia encaixada num fosso a mais de dois metros da superfície, tive de aguentar numa fila de meia dúzia de interessados no mesmo, pois era impossível descer mais do que um de cada vez. A descida foi realizada usando a desenrascada técnica do “secu” e a consequente subida só à custa de muito esgadanhar lama e arrancar raízes. Ainda passei um momento de vexame, quando uma júnior do meu clube, a quem dei prioridade, demonstrando um coração de samaritana me propõe inocentemente: - “Oh Luís, deixe ver o seu chip, que eu pico por si, senão ainda se aleija”. Vergonha das vergonhas, se houvesse outro buraco ao lado, enfiava-me nele, hehe! Para que conste e não haja interpretações dúbias, quem controlou o ponto foi o destemido “berdadeiro”.

Este simples pormenor de engarrafamento, transformou um ponto tecnicamente difícil (apenas para o primeiro que o encontrou), num local de convívio, dado que a malta que ia chegando apenas se limitava a aguardar pela sua vez (faltaram umas revistas para matar o tempo). A tal história do momento certo no local ideal.

Devo afirmar, pois é justo que o faça, que o mapa se enquadrava perfeitamente para a prática da modalidade, com pormenores de relevo em quantidade industrial e escassa vegetação, apenas me assistindo sérias dúvidas que algumas das progressões tenham sido testadas. Alguém se lembrou que a prova iria ser realizada por miúdos, veteranos e “berdadeiros”? Se é verdade que alguns acharam extrema piada ao traçado dos percursos, outros ainda se interrogam como foi possível concluírem sem qualquer contratempo de ordem física.

Por acaso, se o meu BI acusasse menos vinte anos, tinha considerado esta prova um simples exercício físico de rotina ou um desafio emocionante para levantar a adrenalina. Como já sou um honorável cinquentão, limito-me a agradecer ao Santo Padroeiro dos Orientistas ter chegado ao fim sem “mp” e com os ossos todos no sítio.

Se antes de partir, os 6.200 metros já me pareciam um perfeito exagero, para um programa de duas etapas num só dia, no final das hostilidades e após mais de um par de horas de competição que me deixaram completamente roto, não conseguia mentalizar-me que de tarde haveria nova viagem pelas reentrâncias, falésias, fossos, buracos e sobretudo encostas, muitas encostas para trepar e descer.

E é neste momento, que insisto em dizer, que começo a temer o pior.  

Periodicidade Diária

sábado, 15 de agosto de 2020 – 14:00:01

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