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Ponto nórdico em Arraiolos (III)

O segundo dia amanheceu chuvoso, com temperaturas a roçar os zero graus, tendo inclusive caído uns flocos de neve que poderiam decorar o ambiente e fornecer mais um toque nórdico ao cenário do mapa da Herdade do Barrocal, em S. Pedro da Gafanhoeira, mas em poucos minutos o branco transformou-se em castanho lamacento.

Apesar de a Organização ter colocado à disposição, dois autocarros para nos transportar do estacionamento ao portão da propriedade, voltamos a ter uma pré-pernada (1.000 metros) para a Arena, só que a caminhada desta feita não foi muito agradável. A chuva persistente e vento de congelar os…”azimutes” transformou-nos em desconfortáveis “pintainhos”. De maneira a minorar o nosso sofrimento, o Gafanhori previu a situação (o que é que não previram?...eu sei mas não digo, hehe!) e tinham a aguardar-nos uma tenda gigante, para que o pessoal pudesse mudar de roupa e aquecer os ossos (um miminho).

Para quem iria partir pouco depois das nove da “madrugada”, para enfrentar 17 pontos em 4.600 metros, as condições climatéricas não eram as mais aconselhadas e podiam originar perigosa influência negativa no meu comportamento (os dentes batiam que nem castanholas).

Convenhamos que perante uma prova do WRE, desenhada em terrenos potencialmente de elevado nível técnico, munidos de cartografia ainda em fase de aprendizagem, qualquer contrariedade que nos surja pode gerar “tragédia”. Portanto, nem sei se os meus maxilares reagiam ao frio ou ao medo…muito medo.

Por acaso nem entrei mal no mapa. Como fui dos primeiros a partir, não havia intensidade de trânsito, o que me beneficia, pois assim não desoriento nem desconcentro com o vaivém dos outros concorrentes. Progredindo com extremas cautelas, controlei os pontos de entrada, sempre associados a detalhes rochosos, numa zona de baixo relevo e rara vegetação, sem desperdiçar tempo significativo.

Acontece porém, que as pedras continuam a ser o meu calcanhar de Aquiles e não demorei muito tempo a perder o controlo da situação. Ou os prismas me aparecem à primeira investida, ou de imediato a confiança vai por água abaixo. Não encontrei o quinto ponto (mais uma falésia, que repete a história da etapa transacta) onde eu imaginava e dei início a um desnorte de vários minutos, mesmo tendo como óptima referência uma área alagadiça a escassa distância. Vagueei sempre nas imediações da baliza, mas como acertei primeiro com um ponto alheio, tive dificuldade em descobrir a “pedrola” correcta (elas são todas iguais, c`os diabos!).

Não consigo mentalizar-me, que nas provas de distância média, os traçadores normalmente escolhem as áreas mais técnicas, para polvilhar uma quantidade de pontos e assim complicar os percursos, evitando as célebres “colagens”. Por mais ocasiões em que isto me aconteça, volto a cometer os mesmos erros (não iria ficar por aqui) e caio sistematicamente nestas ratoeiras.

Situações previsíveis não faltaram, tendo repetido a gracinha no ponto 10, numa zona exígua pejada de pedras, onde os prismas proliferavam como cogumelos. Consegui encontrar quatro pontos que não eram meus, antes de desenterrar a falésia do invisível “110”. Após este “curso” intensivo de geologia, fiquei apto a fazer parte da equipa de recolha de pontos, tal a informação que passei a dispor da sua localização (um “berdadeiro” nabo).

Podia continuar um rol de lamentações que blá…blá…me desorientei…blá…corri demais…blá…fiquei preso nos arames…blá…havia “pedrolas” a mais…blá…confundi uma clareira…blá…urgência urinária…blá…blá…blá…só que esses pormenores começam a ser maçadores de tão rotineiros e não atenuam a minha frustração. Contudo, acho que devo relatar uma passagem, precisamente pela sua imprevisibilidade.

Ao fim de todo este tempo, quem acompanha as minhas “diabruras”, sabe que não sou tipo de grandes correrias e muito menos de alinhar nas ditas “colas”. Todavia, há momentos que a necessidade faz o ladrão. Pico o ponto seis, seguido de imediato por um dos melhores orientistas nacionais (por acaso do meu escalão). Como tinha acabado de passar um mau bocado no controlo anterior, decidi ir no seu encalço na próxima pernada (cerca de 500 metros), na tentativa de recuperar algum tempo e simultaneamente indagar como estes craques navegam.

- “Nem quero acreditar! Ousaste seguir na sua cola? Não tens um pingo de vergonha!”.

Não obstante o trajecto não ser complicado, como podem imaginar, tive de fazer das tripas coração (um sufoco!), de modo a mantê-lo em linha de vista, mas sempre com os olhos no mapa, não fosse ele desaparecer-me como por artes mágicas. Ele “voou” como entendeu e eu nem sempre escolhi a sua opção, mas ao chegarmos às imediações do ponto, desviou a rota ligeiramente para a esquerda, facto que me fez vacilar, porque para mim o local do”129” era bem mais junto à ribeira.

Dirige-se hesitante para um prisma que tinha avistado, sinto que algo não bate certo, analiso o mapa antes de avançar e quando levanto os olhos, o meu parceiro tinha-se esfumado e eu sem saber se ele tinha picado ou não o ponto. Claro que aquele não era nosso, ficando a ver navios, porque entretanto baixei o mapa, tendo perdido mais uns três minutos na minha relocalização.

Está encontrado o gajo mais azarado do pelotão orientista. Excepcionalmente vou na cola dum companheiro infalível e ele tem o descaramento de se atascar? Às tantas nem falhou mais nenhum ponto (foi só p`ra me contrariar) e eu acabei por não ganhar nada, para além de me ter desgastado ingloriamente e esfrangalhado o orgulho do “berdadeiro”.

- “Foste castigado sem misericórdia! Deus Nosso Senhor não dorme!”.

Quanto a resultados, ainda que não tenha efectuado tantas asneiras como na longa, os erros em distâncias mais curtas pagam-se com língua de palmo. Com um comportamento aos solavancos, obtive uma classificação idêntica à do dia anterior, medíocre quanto baste, que se traduziu numa péssima pontuação, que me deixou deveras desiludido e a precisar urgentemente de terapia (um queijinho de Nisa serviu às mil maravilhas). A continuar neste ritmo, o “patrão” ainda me põe as sapatilhas à porta.

Agora, pedindo desculpa pelo fanatismo, tenho de puxar a brasa à minha sardinha. Nas contas finais, o glorioso clube de que tenho a honra de pertencer, tornou a fazer das suas, conquistando a liderança colectiva, fruto de um ecletismo etário, que nos tem dado muitas alegrias, traduzido em mais de uma dúzia de subidas ao pódio. Numa jornada de novidades cartográficas, com todos os prós e contras que podem advir desta preferência, a “família” do GD4C demonstrou a sua especialidade em “dialecto nórdico”, que em momento de euforia dá vontade de gritar – “venham daí os cartógrafos japoneses!”.

Porque de justiça se trata, o melhor bocado guardei-o para o final. Contrariando muitas dores de cotovelo e laringes engasgadas com sapos, Arraiolos acabou de ser elevada a capital da Orientação Portuguesa, pois contra factos não há argumentos. Se algumas dúvidas houvesse, o espectacular evento que nos proporcionaram dissiparia qualquer objecção que ainda persistisse.

A forte envolvência da autarquia, das comunidades locais e dos mais variados sectores de actividade da região, aliada a uma equipa jovem, dinâmica e apaixonada pela modalidade, superiormente liderados pelo casal Raquel e Tiago, resultou num produto de alta qualidade, que nós, os nem sempre agradecidos orientistas, fomos os únicos beneficiados.

Terrenos de excepcional qualidade, percursos irrepreensíveis, um “speaker” activo e actualizado, Arenas onde não faltou nenhum requisito ao bem-estar dos atletas, logística de transportes sem falhas (o pormenor dos bancos protegidos é genial), dois banquetes de se lhe tirar o chapéu (que sopa divina!), uma profusão de prémios originais, cuidada animação e acima de tudo uma simpatia cativante que sensibilizou profundamente. Em suma, a arte de bem receber alentejana em todo o seu esplendor.

Os arraiolenses colocaram a fasquia demasiado alta, cabendo às organizações de futuras competições, aceitarem o desafio e trabalharem no sentido de tentarem mudar o local da “capital”. Tudo o que se fizer com o propósito de atingir esse objectivo, a Orientação só terá a ganhar. Até lá, o nosso respeito e gratidão a Arraiolos. 

Periodicidade Diária

quinta-feira, 13 de agosto de 2020 – 03:08:32

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