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À conversa com Ricardo Correia, escritor e aluno da Academia de Esgrima Histórica

 

Nesta última parte da reportagem da Aula de Esgrima Histórica no passado dia 15 de Fevereiro vamos conhecer Ricardo Correia, escritor e praticante de esgrima histórica na Sala de Armas do Museu Militar.

 

 

O escritor lançou o seu primeiro trabalho em 2017 um romance histórico com o título “O segredo dos Bragança”, tendo corrido tudo bem de acordo com as suas espectativas.

 

No ano seguinte iniciou uma trilogia que se passa num ambiente de romance histórico mais longo, preparado para três volumes chamado “O regresso do desejado”. Ao longo desse tempo foi apresentando o livro, e no ano 2019 pouco depois da Feira do Livro de Lisboa, o projecto “O regresso do desejado” foi descoberto por um produtor de cinema e televisão norte-americano que estava interessado em realizar algo sobre a história medieval portuguesa, contudo não queria pegar directamente na história nacional mas pretende sim pegar neste romance e torna-lo numa série de televisão à volta da personagem de D. Sebastião. Contorna a história deixando-o chegar a Portugal derrotado após a batalha de Alcácer Quibir. No seu regresso assume novamente os seus poderes perante o reino, e pretende manter as suas ideias e planos de expansão. Desta feita não tem como objectivo voltar ao norte de África, mas sim de conquistar a restante Península Ibérica.

 

São três livros de muita intriga e de muito trabalho histórico ao longo do seu desenvolvimento.

 

O lançamento do último volume desta trilogia está previsto para breve, apesar de estar pronto, pois a situação com o Covid-19 obrigou a repensar a data inicialmente prevista.

 

Quanto às filmagens do trailer, que estavam previstas acontecer entre Março e Maio, seguindo-se as filmagens para a série com início em Setembro ou Outubro, as mesmas foram suspensas por agora, aguardando que possa ser retomada a normalidade em que já não sejam necessárias as actuais medidas a contenção social.

 

Segundo Ricardo Correia, o produtor a partir dos EUA, começou a questionar o que poderia ser feito e de que forma se podiam materializar os conteúdos às filmagens, se havia os recursos... Com isto o autor desloca-se aos “Dias Medievais de Castro Marim” para obter as respostas. Ao fazer alguns registos de imagem para enviar ao produtor encontra a Academia de Esgrima Histórica onde teve uma abordagem sobre o estudo das armas e outros temas que o convenceram a experimentar ele próprio a esgrima histórica na Sala de Armas do Museu Militar, revivendo um pouco do que já tinha escrito nos seus livros que envolvia estas armas. No fundo está quase a materializar o que escreveu.

 

Entre todas a sua arma favorita é sem dúvida a espada rapier, uma arma do séc. XVI e XVII. Acha-a interessante pelo facto de melhor se enquadrar na extensão do braço. A espada medieval é um pouco pesada não muito ágil. As mais recentes já entram numa linha ao “estilo barroco”. A espada rapier está no meio delas.

 

Quanto às dificuldades que Ricardo Correia mais sente como escritor em Portugal, é que a cultura não é tida como uma das coisas mais desenvolvidas e que muitas vezes quando se está a desenvolver algo, sente-se que se está a remar contra a maré, sozinhos ou a fazer um trabalho onde não há um apoio constante. Na sua perspectiva sempre foi e continua a ser um parente pobre. Também nesse aspecto não há uma noção cultural como em outros países. Essa é a maior dificuldade. Outra é a nível da publicação dos livros em que se nota que nas editoras mais pequenas, como é o caso da qual o escritor está ligado em que os próprios têm que pensar no marketing e outras formas de promoção do seu trabalho se querem ter visibilidade do mesmo. O apoio financeiro é outra questão para quem está a começar, não se pode viver da escrita de livros. O trabalho importante a fazer é levar os livros às pessoas, mas não é fácil fazer isso, e hoje em dia com a área do digital ainda menos. Mas indo às pessoas, mostrando-lhes os trabalhos é que se pode fazer com que as coisas andem mais para a frente.

 

Quanto à produção televisiva que está a ser idealizada, todos os apoios contam e são bem vindos sejam eles tanto monetários como de autorizações de filmagem. É um grande gosto que Ricardo Correia tem que haja cenas gravadas em monumentos nacionais contudo conta já com algumas restrições a nível de entidades estatais. O autor encontra neste tipo de filmagens um meio de divulgação das infraestruturas históricas a nível internacional e despertar o interesse pela sua visita, sendo que Portugal é um país de Turismo e isto também é bom para o sector. Esta não será a primeira vez que se fazem gravações de cenas em locais que são património de um país. No estrangeiro um bom exemplo disso é a mediática série “A Guerra dos Tronos”. É mais desse tipo de apoio que necessitam para o projecto que não só o valoriza como também mostra a beleza dos nossos monumentos. É também muito importante o apoio das populações. Para este tipo de produção há sempre algum financiador e com os planos de marketing conseguem sempre o seu devido retorno.

 

Ricardo Correia deixa uma mensagem aos nossos leitores: «Se alguém quiser fazer algo e se chegar à frente, deve fazê-lo. Nunca devemos de deixar de fazer aquilo que gostamos e sobretudo devemos arriscar a fazer aquelas coisas que parece que nos estão vedadas. No caso da esgrima histórica em concreto, acho que se alguém quer sentir nas mãos e no corpo o peso das armas antigas e de como é que se batalhava antes das guerras biológicas, do terrorismo, antes de tudo isto. Acho que se podem passar umas horas muito agradáveis não só descobrindo as armas, mas toda a história que está por trás delas.»

 

Aguardamos o lançamento do último volume da trilogia “O regresso do desejado” assim como a série televisiva.

 

Como vimos ao longo das quatro peças no âmbito da Aula de Esgrima Histórica na Sala de Armas de Algés a 15 de Fevereiro, esta modalidade tem muito mais para além da arte de manejar uma arma. Tem história, vivência, responsabilidade social, cultura, interacção, amizade e junção de sinergias com outras modalidades como a que assistimos do Jogo do Pau Português, e com esta última peça sobre o escritor Ricardo Correia, chegamos ao mundo da ficção. Assistimos a ver como se criam necessidades para sociabilizar as crianças entre si e tê-las a brincar ensinando-lhes história, a inclusão de pessoas com deficiência e criar aulas para não as deixar em casa de parte e rebentando com as cadeias dos seus medos e da exclusão que podem estar a viver.

 

Quando se começa a entrar no fundo deste património histórico, conhecem-se dinâmicas muito para além do esperado. Estas dinâmicas acabam por entrar em ciclos em que umas puxam pelas outras e do trabalho feito, vemos o excelente resultado. Destas quatro peças que fizemos podíamos até ter dimensionado uma série maior, contudo para fazer uma primeira abordagem aos nossos leitores realizamos estas na esperança de voltarmos a escrever mais sobre estes temas.

 

Na primeira vimos o que é a Esgrima Histórica com o Mestre Fernando Brecha explicar a prática da mesma e suas estratégias para a levar às crianças, os adultos e o testemunho do sucesso do seu trabalho e da sua equipa. Na segunda conhecemos a Cátia e o Francisco. A Cátia é uma jovem com autismo que está a ser treinada para ser instrutora de Esgrima Histórica a crianças com autismo, um caso de sucesso. Conhecemos também o Francisco com oito anos, é um bom aluno, desportista e descobriu a Esgrima Histórica na escola e está feliz por praticar. Na terceira conhecemos o conceituado Mestre Nuno Russo e o Professor Nelson Neto do Jogo do Pau Português, mostrando um pouco como surgiu a arte marcial, a sua história, o enquadramento e o trabalho desenvolvido para o apuramento da técnica que hoje é utilizada da Esgrima Lusitana (esgrima de bastão). Agora terminámos com um tema também muito interessante, um escritor que está a materializar não só a conclusão da trilogia de um romance, como também a passagem do mesmo do papel para os ecrãs da televisão através do interesse de um produtor norte-americano. Este autor, Ricardo Correia, após escrever imensas páginas de ficção passada na época de D. Sebastião, conhece a Academia de Esgrima Histórica e na Sala de Armas do Museu Militar tem o contacto e o privilégio de treinar com armas similares às que escreveu nos seus romances.

 

Foi com muito prazer que se fizeram estes quatro trabalhos e onde estão marcadas a interligação entre pessoas, associações, profissões e o lado altruísta da modalidade.

 

Texto e Foto: Pedro MF Mestre

 

 

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sábado, 30 de maio de 2020 – 04:46:56

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