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3º Trilho das Lampas

Decorreu ao fim da tarde do dia 9 de Maio de 2015, o 3º Trilho das Lampas, prova organizada pelo Meia Maratona de S. João das Lampas - Grupo de Dinamização Desportiva, em parceria com a Sociedade Recreativa, Desportiva e Familiar de S. João das Lampas. Prova integrada no Circuito Nacional de Trail Running, na categoria de Trail Curto de dificuldade moderada, tendo por isso a supervisão da Associação de Trail Runnig de Portugal (ATRP).


Com um aumento substancial de participantes de ano para ano, teve nesta 3ª edição 804 atletas chegados à meta e cerca de 150 caminheiros. 


Uma organização à altura que não decepcionou. Desde as inscrições, passando pelo levantamento de dorsais, ambiente geral, a pontualidade na partida, a excelente marcação do percurso, quer as fitas para serem vistas de dia quer os numerosos reflectores para serem seguidos de noite, os bons abastecimentos, o controle, o acompanhamento durante a prova com vários elementos da organização a avisar dos cuidados a ter nos próximos metros, a chegada, os prémios de presença, a sopa quente, os banhos, as reportagens fotográficas, a rapidez nas classificações e entrega de prémios, tudo contribuiu para ter sido esta edição, mais uma edição de sucesso.


Está pois uma vez mais, a organização de parabéns. Muitos Parabéns Meia Maratona de S. João das Lampas - Grupo de Dinamização Desportiva, e todos os seus apoiantes que contribuíram para este sucesso.


 

"A minha Corrida" ou "O Trilho certo"


Então conta lá. Senta aí e fala-me do Trilho. Do das Lampas.


Ela abeirou-se de uma rocha mais saliente, ainda ofegante, as mãos sobre os joelhos e o corpo meio inclinado, a pingar suor. Sentou-se para descansar da última subida e a olhar o mar sob o Sol que se punha, ali, à beira da Praia da Samarra, começou a falar.


Eu já corro em trilhos há mais de 30 anos. Sempre gostei. De pisar a terra, arranhar-me na vegetação e sentir-lhe o cheiro, alcançar vistas só possíveis quando enveredamos pelo meio da serra, da montanha, da floresta ou do pinhal. Sempre gostei da irregularidade do terreno, da constante atenção que temos de ter para apoiar o pé na próxima passada. Sempre gostei de correr em trilhos, ou mesmo na sua ausência, atravessar serras e montanhas. De pisar a terra e sentir o mar também. Correr na Natureza. Comigo. Com ela. Em perfeita comunhão com a Natureza. Quando nunca tinha ouvido falar de Trails, eu já os corria sem saber. Depois vieram algumas provas de montanha, sempre a comprovar este amor pela Montanha e pela Natureza. Sempre adoráveis desafios vencidos, a reforçar este amor. E depois veio o Trilho das Lampas. Nascido apenas há 2 anos, muito a medo lá estive na 1ª edição, pois se é certo este amor, também certos são os medos que se enfrentam em muitos trails e aqui a rapariga é um pouco (?) medricas. Tem medo de alturas, de abismos, de descidas normais para o comum dos mortais mas que para ela ganham proporções alucinantes. E depois o Trilho das Lampas é corrido uma parte de dia e outra parte, invariavelmente, de noite para atletas do seu "nível". Medos redobrados mas espantosamente multiplicadas as sensações vividas inovadas por completo também no sabor da noite. E se correu bem o 1º, estive também no 2º. E claro, não podia faltar ao 3º!


Andava um pouco afastada do calendário de provas, por ter andado a tratar uma lesão, e quando dou por mim tenho o convite do meu amigo Fernando Andrade, organizador deste Trilho e da Meia Maratona, a 2ª mais antiga de Portugal: a Meia Maratona de S.João das Lampas, o convite, dizia eu, precisamente para a 3ª edição do Trilho das Lampas. Numa altura em que já estava praticamente recuperada, e as inscrições no Trilho esgotadas, este convite era irrecusável e aceitei-o de bom grado e a par das edições anteriores posso dizer que tenho lá estado sempre com a motivação extra que este amigo me dá e que sempre me empurra arriba acima.


Então, tudo o que digas é subjectivo, dada a tua relação de amizade com o organizador... já estou a ver - interpelou a voz, desafiadora e desconcertante.


Eu sabia que dirias isso, mas amizade à parte, numa Corrida e na Vida, sei apreciar com clareza o que de bem se faz e igualmente o de menos bem se faz, até e principalmente para que seja corrigido e melhorado. A crítica serve para alertar e dar a oportunidade de melhorar. Nem sequer estaria a ser amiga se omitisse o que quer que seja que não me pareça bem.


Ok, ok, volta lá ao Trilho.


Pedi ao meu mano que levantasse o meu dorsal na véspera. Sempre seria menos uma a estorvar no dia da prova. Assim, no sábado à tarde dia da prova, saí de casa com tempo e tinha tudo preparado. Encontro uma S.João das Lampas em festa como sempre que lá vou. Pórticos preparados, muitos atletas a dar mais cor ao largo e a sala para levantamento de dorsais perfeitamente calma, organizada e muito bem ornamentada para nos receber. 


Cumprimentos, abraços e beijos: as Corridas são sempre ponto de encontro de amigos e conhecidos, e depressa se aproxima a hora de partida. Umas breves palavras pelo Fernando e eis que a Partida é dada pelo Presidente da Junta, que apoia este evento.


Parto cá de trás. A relva macia é muito agradável, já tinha dado para ver durante o curto aquecimento. Depressa saímos do asfalto e entrámos nos trilhos. Adoro. Adoro mesmo. Apanho o meu amigo Adelino nos primeiros quilómetros, que não está no seu melhor e acabo por fazer o resto da prova com ele numa ajuda mútua e constante.


Este ano, porque a organização esticou um pouco o percurso antes do trilho, não houve o afunilamento dos atletas tão cedo. Apenas num outro ponto mais para a frente e por breves instantes. Numa altura em que sabíamos que mesmo se pudéssemos correr, não o faríamos pois a inclinação já se fazia sentir nas pernas. Estava a ver que nunca mais descansávamos! Este era o espírito. Mas sempre que se pôde, correu-se! Salvo nas subidas compridas e bem inclinadas e nas subidas e descidas por meio dos pedregulhos, a exigir alguma técnica e eu tenho muito para aprender também nessa área. Mas não deixo de as fazer, dando sempre passagem a alguém mais destemido que eu que vá mesmo atrás de mim e que eu esteja a fazer de rolha impedindo a passagem.


Temos abastecimento de água em copos que se enchem quantas vezes quisermos, a partir de garrafões. Gosto da ideia e do conceito.


Mais à frente, o Grupo Folclórico a animar a malta. 

 

E lá seguimos, já com o mar à vista, mas lá, longe.

 

Chegamos à praia ainda de dia, como nas edições anteriores. Subimos a falésia e ao chegar cá acima, aqui mesmo onde estamos sentados, vemos que continua a luz do dia! Estamos a andar mais Adelino! Sim, nas edições anteriores chego sempre aqui já noite e é necessário ligar o frontral. Hoje não! Ainda mais bonito o Pôr-do-Sol visto daqui! Lindo! Sobre o mar. Ainda atletas a descer e a atravessar a praia. Seguimos juntos. O Adelino não está no seu melhor e eu se por um lado lhe faço companhia, aproveito a boleia de quem tem experiência disto como poucos que conheço e sigo-lhe os passos. Nas arribas, nas descidas, nas subidas, agora às escuras, entre vegetação cerrada, guiando-nos pelos imensos reflectores que nos indicam o caminho de forma certeira. Ainda assim, mais que o vez o Adelino me chama ao Trilho certo, porque eu sou muito despistada... 

 

Um novo abastecimento, onde chegamos já noite dentro. Aqui há água, laranja, banana, batatas fritas, que se estão ali pelo Sal, dispenso-as pela gordura e preferiria sei lá, por exemplo tomate e sal...ou umas pevides salgadas...

 

Ah...então a menina tem preferências de ementa...como se estivesse no restaurante...estou a ver...

 

Ora, é uma sugestão, uma preferência que com os meus parcos conhecimentos de nutrição se adequaria bastante melhor às circunstâncias, e claro, também uma questão de gosto pessoal.

 

Sorriso a iluminar a arriba.Depois ela continuou a falar:

 

Depois do abastecimento, onde literalmente parámos para abastecer, nós e muitos que lá chegaram nessa hora, onde enchi o meu copo de água mais que uma vez, deixei o lixo no sítio certo, desfazendo-me de uma das garrafas que levara comigo desde a Partida e que entretanto já esvaziara, e seguimos caminho. De novo e sempre eu e o Adelino. Vou à frente, parece que o puxo, sinto-lhe a respiração, e a presença do seu frontal indicava-me se ele se mantinha perto ou se estava a atrasar-se muito e nesse caso, abrandava um pouco. Não o queria deixar nem queria que ele me deixasse. Depois, ele lá recuperava e parecia ganhar forças e era eu que o seguia de perto, não sem dificuldade.

 

A noite, o mar ali ao lado, o seu cantar, a maresia na cara, as luzes de frontais de atletas já ou ainda distantes, as pedras, a terra, a vegetação, o oscilar da luz  ténue do meu frontal no solo, o pó, o coaxar das rãs, a nossa respiração, o meu coração, os meus músculos, o meu corpo e a minha alma perfeitamente assimilados pela Natureza, e ela por mim, numa simbiose e harmonia perfeitas.

 

Afastamo-nos do mar agora e o Adelino sempre atrás de mim. O caminho da ponte romana, iluminado por archotes. Muito bonito e útil também, tendo em conta que a luz do meu fontal estava cá vez mais fraca.

 

Elementos da organização pelo caminho, a indicar o caminho, a avisar dos desníveis, dos potenciais perigos, a incentivar, a empurrar-nos para a frente. Para a frente é o caminho. 

 

Ainda caminhámos mais uns metros. A inclinação faz-se sentir e as pernas sentem o tratamento que já tiveram até aqui. Quilómetro 17 e já não falta tudo. Avançamos sempre que o terreno perde a inclinação ascendente e eu, entusiasmada aí, mais que uma vez o Adelino me chama para o Trilho certo. E eu volto, volto sempre ao Trilho certo. E onde começa a iluminação pública, desligámos os frontais. Ainda passámos um atleta ou outro mas estamos juntos e juntos nos vemos a chegar ao largo de S.João das Lampas. A relva macia é muito agradável, já tinha dado para ver durante o curto aquecimento. E agora, estamos a correr para a Meta. Alegria. Sinto alegria. Muita alegria! Corremos! Fortes! 

 

Meta cortada e marca o meu Garmin a distância de 20,460 Km e um tempo de 2h44m42s

 

Soube depois que fui o 653º atleta a cortar a meta, de um total de 804 chegados.

 

O meu pai presente. O Zé Gaspar presente. Máquinas em punho numa noite já fria para quem está à espera quase há 3 horas. 

 

Uma sopa quente esperava os atletas, que eu tinha já dispensado a minha ao meu pai que a degustou bem antes, andava eu pelo Trilho a sorrir e com as pernas a doer, de coração cheio. Quando acabo, o estômago não a aceitaria de qualquer forma. Uma laranja, uns bolinhos, água e estava completo o saco à chegada. Disponibilizou ainda a Organização, fogareiros para quem lá quisesse cear e fazer os seus grelhados, o que não foi o meu caso.

 

Grande relato...tão longo como o Trilho. Ufa! Parece portanto que a menina gostou e não tem nada a apontar à organização...

 

Sorriso. Novo sorriso. E remata:

 

Este é o meu Trilho certo! Parabéns e Obrigada Fernando Andrade e para o ano cá estarei de novo! 

 

Agradeço a companhia e companheirismo do Amigo Joaquim Adelino e desejo-lhe que tudo lhe corra bem nos 100 Km de S. Mamede que ele vai enfrentar já neste fim-de-semana

 

Agradeço também à Anabela Rodrigues, responsável pelo facto de eu ir tão bem calçada, como há anos não andava (corria) e além disso, gira! 

 

E se ainda não se atreveram nos Trilhos, do que estão à espera?  Este é o meu Trilho certo. Descubram o vosso.

 

Maria Sem Frio Nem Casa

http://mariasemfrionemcasa.blogspot.pt/

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segunda-feira, 12 de novembro de 2018 – 18:35:37

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