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Ser jornalista em Portugal

Com a plateia do anfiteatro B204 do  ISCTE (Instituto Universitário de Lisboa) literalmente cheia, foi lançado no passado dia 07 de julho, o livro «Ser jornalista em Portugal - perfis sociológicos».
Editado pela Gradiva, cujo representante fazia parte da Mesa de Honra, esta Obra é fruto de uma longa investigação realizada sob a égide da Fundação para a Ciência e Tecnologia, e contando também com um protocolo  celebrado com o Sindicato dos Jornalistas.
 
O livro bastante volumoso, tem precisamente 950 páginas e pesa 1,5kg., foi coordenado pelo Prof. José Rebelo (ex-jornalista, e que nos concedeu uma entrevista) e por uma equipa de 12 investigadores do CIES-IUL, e com ajuda do Sind. Jornalistas e da Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas.
 
Segundo o Coordenador, o estudo revelou a existência de três perfis-tipo de jornalistas.
 
O perfil 1, aborda os que entraram na profissão há mais tempo, (antes de 1976) o perfil 2 estuda os que integraram o lugar entre aquela data e 1986, e no perfil 3, os que vieram a partir do ano mencionado em último.
 
È também chamada a atenção para a feminização da profissão em Portugal, pois segundo o estudo, este dá a conhecer a proporção de mulheres no total dos jornalistas portugueses que ultrapassava em 2009, ligeiramente, os 40%.
São diversos os títulos de cada estudo, a saber por exemplo: Antiguidade e mobilidade; Situação na profissão; Habilitações académicas; Categoria profissional; Regime livre, Desempregados e Reformados; Jornalistas em meios de comunicação social  portugueses , entre outros.
 
A segunda parte do livro tem por título ”Histórias de Vida”, onde 47 jornalistas são entrevistados por outros tantos colegas de profissão, obedecendo a acordos com perfis pré-definidos.
 
Escolhemos neste caso algumas respostas curiosas e de certeza momentâneas de alguns jornalistas conhecidos da maioria do público:
Pergunta: - Onde é que estavas no 25 Abril?
Resposta: -  a dormir! (Baptista Bastos - freelance/escritor)
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P: - Prevês a morte do jornal em papel?
R: -... toda a gente anda sempre a profetizar a morte de qualquer outra coisa.... (João Marcelino, Director do D.N.)
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P: - Bateste á porta do Diário de Lisboa?
R: - literalmente! (Joaquim Letria, prof. de jornalismo na UAL)
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P: - Usarias no «Telejornal» um cachecol da selecção nacional?
R: - Nem pensar, nem pensar. Quando faço o «Telejornal», não sou de ninguém! (José Rodrigues dos Santos - RTP)
 
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P: - Mas não é verdade que te fizeste jornalista por acaso?
R: - Exacto. Mas tinha muito jeito. (Judite de Sousa - ex-RTP)
 
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P: - Que importância tem a religião na tua vida?
R: - A religião? Nenhuma. (Miguel Sousa Tavares - Escritor e comentador político)
A apresentação do livro ficou a cargo de Paquete de Oliveira (ex-Provedor da RTP) e do próprio coordenador da Obra, José Rebelo, que a dada altura da palestra, advertiu: já sabem que quando começo a falar, nunca mais me calo..., o que provocou uma forte gargalhada da assistência, e que, alguns minutos à frente ouviria do mesmo orador..., bom, depois destes momentos de conversa, vou calar-me!
 
O evento, que até nem foi muito longo, foi seguido com bastante entusiasmo pelos presentes, na sua larga maioria, jornalistas, cuja faixa etária rondava entre os 70 e tal anos e os mais jovens, e entre estes, um «convidado» com...  4 dias de vida, !
 
Será, um novo colega na profissão?
José Carlos Pinto
 
 
Entrevista a José Rebelo, coordenador do livro
 
Lançar esta obra, foi mesmo “uma obra”?
Foi mesmo uma obra, correu tudo bem, mas é difícil,  pois percorri um caminho longo que durou quatro, cinco anos e recolheu-se um manancial de informações e o que nos parece é que este livro pode ser um ponto de partida para muitos outros estudos que vão ser feitos nesta área, que já é estudada, mas que necessita que cada vez mais, ser mais estudada ainda.
 
É uma Obra impensável há uns tempos atrás?
Concerteza. Eu fui jornalista antes do 25 de Abril, e exilei-me por razões óbvias, e com o regime então existente e com a Censura prévia que havia na altura, claro que não havia condições para fazer este ou qualquer outro estudo desta natureza.
 
Divertiu-se algumas vezes com a feitura deste livro? Alguma situação engraçada?
Não se trata propriamente de situações engraçadas, mas em termos de grupo de trabalho, a ideia que guardo e não me vai abandonar, é na relação do grupo que se estabeleceu entre pessoas de formação académica e de idades diferentes, de experiências profissionais diferentes e que acabavam por aceitar uma espécie de igualdade total, de intervenção e legitimidade, e essa relação de solidariedade, essa coesão nesta equipa é seguramente a experiência mais gratificante que eu conservo.
 
O Diário de Lisboa, o Diário Popular, o Diário Ilustrado, o República, foram jornais sob a alçada do regime. Hoje não há jornais com razão de queixa?
Razões de queixa há sempre. Hoje fala-se muito da censura comercial, das influência das audiências sob os conteúdos, agora estamos a falar de uma coisa diferente. Uma coisa é denunciar a mercantilização da profissão, outra coisa é confrontarmos com a Censura Prévia, com a Polícia Política, com as prisões do antigamente. Não podemos pôr tudo no mesmo saco, agora eu até posso dar uma entrevista a denunciar essa mercantilização da profissão.
 
O jornalismo em Portugal vai de vento em popa ou sofre em determinados momentos  de alguns precalços?
Não navega de vento em popa e não há nada que não tenha precalços, tem esta profissão como têm outras, só que tem uma responsabilidade diferente na medida que ela participa directamente na formação da opinião pública.
 
Feita a apresentação deste livro, suponho que vai descansar a sua cabeça durante algum tempo?
Não, Não. Já está outro projecto na calha e que consiste em que sociológicamente pode ser detectado nestes jovens jornalistas, naqueles que entraram na profissão no decurso destes, dez doze anos, por que nesse sector há tranformações radicais que se estão a produzir, tanto no que respeita à representação da profissão por parte dos jornalistas, como no que respeita ás condições de trabalho e inter-relações .
 
Há muitos jovens que estão em estágio nos diferentes jornais e que depois não são aproveitados?
Eu aproveitei justamente a minha intervenção no lançamento do livro onde abordo esse aspecto. De facto o que me diz é verdade, até porque o número de estagiários tem subido sem cessar no decurso destes últimos oito, nove anos, e a nossa convicção é que tendo em conta a redução em paralelo do número de profissionais, é que em muitos casos os estagiários estão a substituir os jornalistas profissionais e que isso corresponde a uma estratégia, em alguns casos, que as próprias Redacções fiquem mais económicas e também mais dóceis.
 
Ainda há jornalistas que trabalham “por amor à camisola”
Não posso dizer que não haja, agora esse número é cada vez menor, porque esse conceito de jornalismo como missão, é um conceito cada vez menos presente ao nível das novas gerações de jornalistas.
 
José Carlos Pinto

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sexta-feira, 16 de novembro de 2018 – 08:06:10

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