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Entrevistas

Vamos conhecer os 2JACK4U

 

 

Fomos conhecer a dupla 2JACK4U, um projeto de Acid Techno com características pouco comuns. E pouco comuns porquê? Porque munidos de maquinaria analógica, sintetizadores, drum machines (máquinas de ritmo) e efeitos percorrem o país com os seus míticos lives improvisados de Acid Techno, género musical que surge no final dos anos 80. No seu estúdio em Cascais preparam o seu setup analógico, escolhem as máquinas (Roland TB-303, Roland TR-909/808/606, Roland SH-101, Roland MC-202, Behringer Pro-1, entre outros) e efeitos (delays, reverbs, phaser, distorção) que vão utilizar e apresentam os seus lives em festivais e locais de diversão nocturna, tendo já passado pelo Festival Neopop (Viana do Castelo), Brunch Electronik (Lisboa), Festival Forte pelo Lux (Lisboa), Gare Club (Porto), Desterro, Damas (Lisboa) entre muitos outros locais. Têm ainda um slot mensal com o seu programa “Covil Sessions” da Rádio Quântica e neste momento de pandemia é habitual vê-los e ouvi-los nos streamings que fazem nas redes sociais a partir do seu estúdio a que chamam Covil!

 

 

2JACK4U é composto por André Faustino, médico de profissão, cascalense por natureza e Rubina Góis professora de filosofia, nascida e criada no arquipélago da Madeira. A jornada musical de André Faustino começou quando se dedicou a aprender órgão clássico e formou a sua primeira banda de escola nos anos 80, “Os Sulfúricos” que tocavam covers do rock, pop eblues. Manteve-se em bandas de rock até final de 1991. Rubina Góis entrou no mundo da música quando começou a trabalhar numa sala de ensaios e gravações em Alcântara, posteriormente conheceu o André através de um amigo em comum, o Francisco. Juntos formaram os “LorenzFactor”, projeto de djing tendo a partir daí surgido outros projetos como “The Cage Cabarrett” de música experimental, “2jack4U” de Acid Techno improvisado com hardware analógico, “Pharmacia” banda de Krautrock com Ricardo Simões e Mário Fernandes.

Vamos conhecê-los melhor com uma breve conversa.   

               

AMMA: Como surgiu a vossa formação musical?

 

2Jack4U

 

Rubina Góis: Desde pequena que adoro musica, sempre me interessei por conhecer ondas novas e novos estilos musicais, a música para mim faz parte de toda a minha existência e não poderia viver sem ela, mas é quando venho estudar filosofia para Lisboa que começo a trabalhar nesta área por ter conseguido trabalhar na receção de uma sala de ensaios em Alcântara, os estúdios HCU.  Mais tarde, conheci o André através do nosso amigo em comum, o Francisco Rodrigues e como trio formámos os LorenzFactor, projeto de djing que percorreu Portugal de norte a sul com os seus djsets multifacetados e divertidos.

 

André Faustino: No meu caso começa quando inicio a aprendizagem do órgão e começo a tocar nas Missas do Colégio dos Salesianos onde estudei até ao 12º ano. Para podermos usar a sala de ensaios, tocava órgão nas missas, era uma espécie de moeda de troca para a banda que formei com os meus amigos, na altura “Os Sulfúricos”, pudesse ter uma sala de ensaios. Aliás tocávamos todos nas Missas e dias de Celebração. “Os Sulfúricos” duraram alguns anos mas era uma banda mutável pois sempre que saía um elemento mudávamos o nome; fomos Eqivoko, Cabo da Moca, SilverRose (estes são os nomes de que me lembro).

 

AMMA: Tiveram vários nomes para este projeto ao longo destes anos. Porquê?

 

2Jack4U: Não existiram vários nomes para este projeto. Existem e existiram outros projetos desde 2005/6. O primeiro foi LorenzFactor um trio de DJs, a partir daí surgiram muitos outros projetos paralelamente. Uns acabaram, outros estão em hibernação. “2jack4u” é a nossa vertente mais dançável porque o género musical assim o dita, falamos do Acid Techno. Mas existem outros projetos como “The Cage Cabarrett”, projeto mais experimental, mas também com maquinaria analógica, “Pharmacia”, projeto com formato banda onde eu e a Rubina contribuímos com os sintetizadores analógicos, o Ricardo Simões com bateria e outra parafernália de efeitos e instrumentos e o Mário Fernandes com o baixo. Existe também “The Man With No Head”, que é um projeto dedicado às produções dentro do estúdio. E a Rubina tem o seu projeto a solo, como Trigher que utiliza também sintetizadores e caixas de ritmo analógicas. No entanto há algo comum entre todos os projectos, são todos baseados em improvisação, 'sem rede', com material por vezes mais velho que nós. E, claro, temos centenas de horas gravadas de jams com outros artistas ou projectos, gravados aqui no estúdio.

 

 

AMMA: Em Portugal há mercado para a música alternativa mais em concreto o Acid Techno, ou ainda se sente alguma resistência da parte dos espaços de música nocturna e do público em geral?

 

2Jack4U: Neste momento não podemos considerar o Techno ou a Dance Music como alternativo. Por exemplo o Techno foi considerado em 2019 Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Cada vez é mais difícil encontrar espaços nocturnos dedicados unicamente ao Rock, no entanto locais com música de dança abundam pelo país. Porém os nossos Lives são uma metamorfose das nossas várias influências, canalizadas para aquelas máquinas, resultando num estilo que realmente podemos considerar mais underground e alternativo.

 

AMMA: Como vêm o futuro da música de dança em Portugal?

 

2Jack4U: Com bons olhos porque existe cada vez mais autonomia por parte dos produtores, mais ferramentas seja a nível de produção, mas também de divulgação do teu trabalho. Hoje em dia já não precisas de ser “descoberto” por uma editora para dares a conhecer a tua música, claro que com uma editora o caminho torna-se mais fácil. As plataformas de divulgação digital dão mais autonomia aos projetos para divulgarem a sua música e chegar a qualquer parte do mundo. Essa autonomia permite também que conheças e tenhas acesso a mais música de diversas origens. As bandas de garagem tornaram-se num produtor de quarto (BedRoom Producer).

 

AMMA: Como foram os vossos primeiros tempos antes de se lançarem e terem o sucesso que têm hoje e também quais foram as maiores dificuldades que sentiram?

 

2Jack4U: O acesso a certos espaços noturnos e festivais é um caminho por vezes difícil. Ser conhecido não significa que um projeto é bom ou mau, mas por norma só te convidam para grandes festivais ou grandes casas quando já tens uma certa “fama” no mercado, fama que não é necessariamente sinónimo de qualidade.  

 

AMMA: Em que festivais e locais de diversão noturna é que já atuaram?

 

2Jack4U: Tocámos em locais como o Lounge, Desterro, Damas, Lux Frágil, Village Underground, Europa, Flur, Eka Palace (Lisboa); Gare, Maus Hábitos, festas da Ácida (Porto); Oceans Club para a EON (Portimão), Friday Hapiness Pizza Night (Monchique), Stereogun para a Lobo Mau Records (Leiria). E no Festival Neopop (Viana do Castelo), no Brunch Electronik, no Camping do Festival Forte (Montemor-O-Velho), no Zigur Fest (Lamego), nas Oficinas do Convento (Montemor-O-Novo), entre outros.

 

 

AMMA: Para uma atuação ao vivo, em média quanto tempo investem a prepará-la?

 

2Jack4U: Uma vida inteira (risos). É um trabalho que nunca para porque todas as aprendizagens são importantes para a tua evolução no teu trabalho. Mas gostamos de ter algum tempo mínimo, digamos 2 semanas, para pensar o setup, ou seja, as máquinas e efeitos que vamos utilizar e (muito importante) as ligações entre elas, depois das máquinas ligadas e testadas a palavra de ordem é “jammar, jammar, jammar”! Sempre improvisado! Sempre diferente!

 

AMMA: Os 2Jack4U têm a particularidade de usar equipamento analógico. Existe algum motivo especial para isso?

 

2Jack4U: Na verdade tudo começou quando o Francisco aparece no Covil com um flyer publicitário dos anos 70, de uma freira a manipular um sintetizador numa mala (EMS Synthi A) com a frase ‘Every Nun needs a Synthi’. Isto aconteceu por volta de 2009, a partir desse momento foi a desgraceira dos sintetizadores e comprámos o primeiro um Theremin. Nesse momento decidimos entre os 3 que o (pouco) dinheiro que angariássemos no djing seria para investir em synths e drum machines. Ficámos, portanto, máquino-dependentes J

 

AMMA: Como muitos dos aparelhos analógicos estão descontinuados do mercado, há dificuldade em conseguir obtê-los e fazer a sua manutenção? Ainda há componentes para substituição?

 

2Jack4U: É muito difícil porque a procura é cada vez maior e a oferta é pouca. Não é qualquer técnico que tem os conhecimentos para reparar máquinas analógicas do século passado. Já não existem os componentes originais, mas é possível encontrar alguns componentes que podem bem substituir os originais. Por outro lado, existem componentes que já não são possível encontrar, nesse caso dizes adeus à máquina, pois não há forma de a voltar a pôr a funcionar. Mas, no entanto, por as máquinas serem tão antigas, os componentes são extremamente simples (devido à electrónica na altura ser mais rudimentar) e esses conseguimos arranjar com facilidade. Mas a verdade é que muitos synths resultaram de lotes de peças defeituosas o que lhes dá um carácter único. E quando esse lote acaba... acaba a produção desse synth. Há várias histórias do mundo da música de grandes sucessos comerciais que resultaram de erros de produção ou lotes de peças defeituosas. O Roland TB-303 é o exemplo mais evidente e famoso!

 

AMMA: Assim para além dos vossos conhecimentos musicais, este projeto também requer conhecimentos de eletrónica. Houve necessidade de novas aprendizagens? Isso foi um bom desafio?

 

2Jack4U: No nosso caso, não nos dedicámos aos conhecimentos da engenharia eletrónica, porque o nosso trabalho não é reparar a máquina, mas o nosso papel é usá-la em termos criativos; esse é o nosso desafio. Tivemos de estudar o que é a síntese analógica, como funcionam os sintetizadores, o que fazem, como trabalham, para que servem tantos “botões” (risos), tivemos também de estudar qual a melhor forma de colocar várias máquinas a conversar  uma com as outras, tivemos de estudar a melhor forma de montar um estúdio. Toda a componente técnica de reparação das máquinas foi sempre realizada por pessoas especializadas, atualmente pelo nosso “drº dos synths”, o Rui Antunes.

 

AMMA: Em que aspeto a atividade musical acaba por ter impacto na vossa vida profissional?

 

2Jack4U: Principalmente no sono (risos). Nunca temos fins-de-semana. É um interruptor passar da fase profissional para a fase criativa.

 

AMMA: Agora em situação do Covid-19 têm estado a oferecer espetáculos online de acesso livre. É uma questão de solidariedade para quem não pode sair de casa?

 

2Jack4U: Para nós é uma oportunidade de continuar o nosso trabalho, divertirmo-nos e divertirmos quem assiste, e ficamos felizes quando recebemos um “obrigado por isto, estava mesmo a precisar” porque significa que o live que transmitimos em streaming não nos fez só felizes a nós, mas a outros que estiveram (mesmo que por breve minutos) a assistir, se pudermos animar e dar mais alento a quem não pode sair de casa.

 

AMMA: Com o fecho dos espaços de diversão noturna ficam limitados à participação na Rádio Quântica e aos diretos online?

 

2Jack4U: Ficamos todos limitados em tudo, mas é necessário adaptarmo-nos e reinventarmo-nos daí estarmos a emitir os nossos diretos semanais online a partir do estúdio. Agora também há mais tempo e oportunidade para criar faixas novas que em breve sairão em várias compilações. A participação na Rádio Quântica é mensal e também convidamos outros projetos a mostrar o seu trabalho. Não centramos o programa “Covil Sessions” unicamente aos nossos projetos.

 

 

AMMA: Têm alguma mensagem que queiram deixar tanto aos vossos fãs como aos outros artistas que neste momento estão a viver as mesmas dificuldades que vocês devido ao confinamento?

 

2Jack4U: Parar é Morrer. Não Pára Não Morre! Tudo é Mudança e Incerteza (daí adorarmos a improvisação) e esta Pandemia veio comprovar isso e abalar todas as Certezas que o Ser Humano necessita e em que se apoia. Isto veio mudar tudo e temos que nos adaptar. E vamos conseguir! A Música não é só um escape é também um poderoso medicamento e meio de comunicação. E nesta altura precisamos tanto de comunicar uns com os outros....

 

AMMA: São tempos para repensar um pouco a vossa estratégia e alinhar o vosso futuro como projeto ou não estão preocupados com isso?

 

2Jack4U: Temos saudades de estar na presença das pessoas, de partilhar com elas o nosso trabalho, de fazer os lives e saudades da comunicação que se estabelece ao vivo. Queremos voltar aos lives porque sentimos falta dessa comunicação e união que sentimos com as pessoas quando tocamos. A nossa única estratégia é tocar!  (sorriso).

 

AMMA: Como estamos a falar de saúde e tendo em conta que o André é médico, tem tido uma vida mais atarefada, nos últimos tempos. Consegue gerir bem a atividade de clínico com a música? A música acaba por ser um escape para si?

 

2Jack4U: Neste momento aguardo ser chamado para as 'trincheiras' mas até agora ainda não estive na linha da frente. A música é sempre uma catarse. É a terapia ao fim do dia. É o Xanax e o Prozac sem ressaca (risos).

 

AMMA: A Rubina também está a viver um novo desafio para os próximos tempos que será terminar o ano letivo com os seus alunos à distância. A pergunta é semelhante à do André, como consegue gerir nestes tempos que são novidade para todos e a atividade musical?

 

2Jack4U: O desafio é enorme e está a dar-me muito prazer preparar as aulas à distância onde neste momento trabalho com sessões síncronas, mas também com sessões assíncronas. Aquilo de que me apercebo é de uma maior motivação dos alunos para aprender. Penso que os miúdos são constantemente bombardeados com a escola, o ter de aprender isto e aquilo, a serem obrigados a passar demasiado tempo no espaço escolar e dentro das salas de aulas o que se torna exaustivo e desmotivador. Com esta pausa pandémica eles aprenderam a valorizar as aprendizagens e os conhecimentos. Esta é também uma altura para o ensino se reinventar fora da sala de aula e quando regressarmos ao espaço comum trazermos connosco aquilo que aprendemos com o ensino à distância.

 

AMMA: Em termos de rentabilizar o vosso projeto, estão a idealizar o lançamento de algum álbum, ou mesmo para aquisição dos temas nas plataformas eletrónicas?

 

2Jack4U: Existem várias faixas prontas a sair em breve em diversas para compilações. Durante esta pandemia, para além dos streamings, estamos a focar-nos também num projeto colaborativo com outros produtores portugueses e a focarmo-nos na produção de um álbum ainda sem data anunciada.

 

AMMA: Agradecemos a vossa disponibilidade por esta conversa, para vos darmos a conhecer melhor aos nossos leitores, fazer o balanço da atividade da música alternativa, neste caso o Acid Techno e ainda a conjuntura social que atravessamos com a atividade do projeto.

 

Texto: Pedro MF Mestre

Fotos: André Dinis Carrilho

 

 

Sofia Caessa Güerne apresenta “Quem tem Medo do Halloween?”

 

 

Fomos à descoberta de um livro cujo lançamento decorre por ocasião do Halloween, em que a sua autora desmistifica as personagens e mostra que nem todos são maus como se pensa. Por trás da aparência de cada um há uma pessoa boa e todos e somos diferentes.

 

 

Sofia Caessa Güerne, é uma talentosa escritora que já conta com a sua terceira obra destinada a crianças. Antes de “Quem tem Medo do Halloween?” já lançou com sucesso o “Augui e as Lágrimas Sem Fim” e “Augui e o Mistério do Vale das Fadas”. Este novo livro conta com as ilustraçõesde Mafalda Claro, também uma jovem e talentosa artista.

 

Tem dedicado a sua vida às crianças, tanto em ateliers criativos, como num projecto que desenvolveu na Bélgica a “Little Film Academy”, baseado em cursos e ateliês de cinema e escrita criativa para crianças.

 

Embora seja de naturalidade portuguesa, passou por países que a inspiraram, como a já referida Bélgica, Brasil e EUA.

 

Regressa a Portugal, e lança estes livros da também jovem editora Lêleh Land, agora com uma plataforma electrónica disponível (https://leleh-land.com) onde se poderão encontrar estes títulos para compra online e outras informações. A linha que a editora traçou é que os seus livros não recorrem nem ao conflito nem ao medo nos seus textos, mas sim o oposto: a transmissão dos valores humanos e com personagens a mostrar a realidade e a beleza da vida.

 

A saúde não lhe tem sorrido da melhor forma. Já lutou e venceu uma situação de cancro, estando agora a recuperar de uma segunda incidência.

 

Tem também a Hora do Conto, onde preenche o seu tempo a contar histórias para as crianças.

 

Os seus dois filhos também lhe servem de inspiração, vamos ver esta questão e outras na breve conversa que tivemos com a autora.

 

AMMA – Como teve início a sua paixão para a interacção com as crianças através de histórias?

Em 2001 fui para Nova Iorque estudar no Lee Strasberg Theatre Institute e no período de 5 anos em que vivi nos Estados Unidos trabalhei num jardim de infância Montessori.

Há cerca de oito anos fui viver para Bruxelas e propuseram-me dar um ateliê de escrita criativa para crianças. Tinha tido experiência a trabalhar com crianças, mas não num regime de ensinar algo específico. Foi intimidante, mas o ateliê correu muito bem e as crianças gostaram muito. Foi maravilhoso ver a criação de histórias e personagens, ver a imaginação e a criatividade no seu estado mais puro. Aprendi muito e apaixonei-me por esse momento de dar uma pequena semente e vê-la florescer. Inspirou-me ver crianças que não tinham motivação nem interesse na escrita escreverem histórias fantásticas e originais. Um ano depois essa mesma associação cultural contratou-me para fazer um ateliê de cinema. A experiência foi tão maravilhosa que passado um ano tinha fundado uma escola de cinema para crianças.

 

 

AMMA – Quando “nasceu” o seu primeiro livro, qual foi a principal emoção que sentiu?

O primeiro livro “Augui e as Lágrimas Sem Fim” foi uma história que escrevi para oferecer à minha avó. Na altura vivia nos Estados Unidos e não tinha muito contacto com a minha avó por isso achei que ela merecia uma prenda especial e feita por mim. Escrevi a história a lembrar-me de momentos especiais vividos entre neta e avó. Momentos nossos em que passávamos tempo na natureza a colher frutos. Como não sabia ilustrar, fiz uns desenhos muito básicos em Powerpoint. Encadernei o livro à mão e enviei-o para a minha avó. Essa foi a semente da personagem Augui que representa as avós, a ligação única entre avó/avô e netos, às memórias que não desvanecem no tempo. Este livro é uma homenagem à minha avó, à dedicação e ao amor que ela nutriu por mim, às lições que aprendi com ela, aos momentos que vivemos. Agora os meus filhos estão a criar esses momentos e memórias mágicas com os seus avós.

 

AMMA – Como a sua família, mais em concreto os seus filhos a inspiram nos seus temas?

Desejo que os meus filhos cresçam num ambiente cheio de amor, tolerância e respeito. O segundo livro da serie Augui (Augui e o Mistério do Vale das Fadas) fala da magia que está perdida e isso simboliza a inocência que se tem vindo a perder no mundo. Lembro-me da minha infância ser colorida com inocência, pureza e bondade. É certo que era outra época, sem tecnologia, sem tanta pressão social. Desejo para eles uma infância mais próxima da infância que tive o privilégio de ter. Tive o privilégio de ter crescido com uma família que me proporcionou uma infância feliz em que eu pude ser criança no sentido mais puro e bonito - deram-me as ferramentas para sonhar, imaginar, brincar. Esse livro mostra-nos valores que são extremamente importantes- o respeito, a coragem, o amor, a bondade, a paz- de uma forma explícita. Ou seja, para haver magia no mundo é preciso existir esses valores. O livro do Halloween, apesar de à superfície parecer uma história meramente divertida, fala-nos dos medos e mostra-nos facetas das próprias crianças e da vida. Quis escrever esta história para comunicar com os meus filhos que os monstros não são medonhos e que eles próprios têm medos, que o Monstro de Frankenstein, apesar de grande e intimidante, no fundo só quer ter um amigo. Essas personagens representam pessoas reais com quem os meus filhos (e as crianças) terão que se confrontar na vida. Para além dos livros publicados, invento histórias quando acho necessário passar uma mensagem de uma forma mais lúdica e menos frontal. Histórias que os fazem pensar e que os inspiram.

 

AMMA – A Hora do Conto ocupa-a durante grande parte do seu tempo livre. Mesmo assim é um elemento fundamental para a sua vida e carreira?

A Hora do Conto e a interação com as crianças são fundamentais. Para a minha carreira enquanto escritora e editora, é essencial estar em contacto com as pessoas que vão apreciar o meu trabalho porque é para elas que escrevo. Aprendo muito com estes eventos. Inspiram-me a escrever mais e melhor. E por vezes essa interação inspira uma criança a querer sonhar ser escritora. Na minha infância, apesar de ler muitíssimo, acreditava ser impossível ser escritora. Não me recordo nessa altura de ter conhecido uma escritora. Acredito que uma experiência assim teria engrandecido esse pequeno sonho de ser escritora. Felizmente tive uma professora que acreditava em mim e que me disse que um dia eu iria ser escritora. Para a minha vida pessoal é um privilégio contar uma história a crianças e ver os seus olhos a brilhar. Adoro trabalhar com crianças- é verdadeiramente inspirador e gratificante!

 

AMMA – Os problemas de saúde que tem tido, vencendo um cancro e estar a lutar contra o segundo também a fortaleceu como mãe e como escritora?

Eu não acredito que esteja a lutar contra o cancro pois uma luta é sempre algo negativo. Acredito sim que estou a trabalhar em conjunto com o cancro para me fortalecer enquanto mulher, para me conhecer mais profundamente e para mudar perspectivas e hábitos menos bons. Ter um diagnóstico de cancro em estado avançado com um filho de três anos e outro com ano e meio fez-me ver a vida de outra forma. Tornei-me uma mãe mais forte, mais confiante e que se esforça ainda mais para dar o seu melhor. Não sou perfeita e nunca o serei, mas aceitar a morte fez-me crescer e sentir ainda mais gratidão pela vida que tenho e pelos filhos que amo. Passar por dois cancros num espaço de três anos com energia e amor pela vida e pelos momentos do dia-a-dia fez-me acreditar em mim, nos meus sonhos, nas minhas capacidades como mãe, escritora e ser humano. Já tinha desistido do sonho de ser escritora (apesar de de ter trabalhado em artigos em revistas e como guionista), mas ter cancro e confrontar-me com a minha mortalidade fez-me acreditar em mim e seguir em frente. Talvez fosse a única oportunidade de concretizar esse sonho. Começar uma editora do zero, sendo mãe solteira e estando doente, não teria sido possível sem o apoio dos meus pais a nível emocional, financeiro e logístico. Agora como autora de três livros, desejo que a as minhas histórias inspirem e que possam, de uma forma pequenina, fazer a diferença em alguém. Gostaria muito de escrever um livro sobre o meu percurso com o cancro pois acredito que poderia ajudar muitas pessoas. Mas, cada dia de cada vez e cada projeto de cada vez.

 

AMMA – Com este seu novo trabalho, a ideia de desmistificar aquilo que aparentemente seria mau, mostrando o lado bom de cada personagem e da vida foi um grande desafio?

Não foi um desafio mostrar o lado bom de cada personagem pois todos nós temos essa dualidade. Mas, foi uma confirmação e aceitação de que, mesmo com as melhores intenções, todos nós julgamos precocemente, fazemos juízos de valor, temos medo do desconhecido. O castelo que o personagem visita representa o mundo- é grande, assustador, cheio de coisas e pessoas desconhecidas. Nem sempre temos vontade de “entrar no castelo”, mas com coragem podemos entrar e ver que afinal há tanta coisa boa e divertida dentro do castelo. Quis desmistificar esse preconceito que os monstros são maus, que os zombies nos comem vivos, que os lobisomens são agressivos. No fundo, temos todos momentos em que agimos assim e temos todos as mesmas necessidades básicas. As crianças são marotas, os adultos têm atitudes menos boas. Os pais que, nesta sociedade, andam exaustos a viver em piloto-automático parecem zombies e as crianças são como os lobisomens- são pessoas com instintos animais. Somos todos criaturas do Halloween e vivemos todos dentro deste grandioso castelo que por vezes parece e é mesmo assustador. Mas, com aceitação, compreensão e tolerância podemos interagir com maior harmonia e paz.

 

AMMA – O porquê do Halloween para o tema deste livro?

Eu fiz a maior parte da minha escolaridade obrigatória em escolas internacionais. O Halloween e o Thanksgiving foram celebrados na minha infância e eram as minhas referências culturais. Só com onze ou doze anos é que percebi que estas eram celebrações americanas e não portuguesas. Mas essas referências culturais ficaram enraizadas em mim.
 

AMMA – Na fase de concepção da obra escrita juntando a ilustração da Mafalda Claro foi uma tarefa fácil para ambas?

Este livro foi feito ao contrário. A Mafalda quando trabalhou comigo há uns anos fez estas ilustrações para uma história de uma outra escritora. Quando fui diagnosticada com cancro há três anos tive que suspender todos os projetos. Tinha as ilustrações- sou uma grande fã do trabalho da Mafalda- e ficava com um aperto no coração sempre que as via “sentadas” no computador. Não as podia usar com a história da outra escritora por isso as ilustrações tiveram paradas durante uns dois anos. Uma noite os meus filhos pediram-me para lhes inventar uma história. Adormeci ao lado deles e na manhã seguinte acordei às 6:00 com esta história na cabeça. Fui logo escrevê-la e perceber se dava para usar estas ilustrações com esta nova narrativa. O processo de desconstrução e construção das ilustrações foi muito engraçado e um grande desafio. No fundo, é um trabalho que faço nos ateliês de escrita criativa e foi muito divertido passar por esse processo. É fascinante ver como é que uma imagem pode ser interpretada de várias formas consoante as pessoas que a percepcionam. Felizmente a Mafalda gostou do projeto e avançamos com o livro.

 

AMMA – Quais são as faixas etárias de crianças com que mais costuma lidar nas suas actividades?

Nas horas do conto há crianças desde os 4 anos. Nos ateliês de escrita e cinema trabalho com crianças dos 8-12 anos de idade. São faixas etárias distintas e cada uma oferece desafios e aprendizagens diferentes.

 

 

AMMA – Agora com a loja online consegue chegar a um leque mais alargado de público. Prevê ter que fazer reedições em algum dos temas.

Isso seria fantástico! Mas, antes de pensar em reeditar, gostaria de ter os livros em inglês. Já foram pedidos versões em inglês, mas de momento não tenho recursos financeiros para essas edições.

 

AMMA – Já tem um quarto livro em preparação?

Há já um quarto livro pronto para ser editado. As ilustrações são também da Mafalda Claro e o livro é muito bonito. Chama-se “A Guardadora de Sonhos” e é sobre uma menina que vive nas nuvens e que anota num grande livro todos os sonhos que nós aqui na terra sonhamos. Escrever um livro sobre o poder e a magia do sonho era inevitável para mim. Sou uma grande sonhadora e acredito que nunca devemos desistir dos sonhos. Desejo lançar esse livro na primavera. Depois desse livro gostaria muito de trabalhar com outros autores e artistas.

 

AMMA – Finalizando a nossa conversa, quer deixar uma mensagem aos nossos leitores?

Não deixar de sonhar- sonhos grandes e sonhos pequenos! Nunca sabemos quando chega o momento em que um sonho se concretiza. Tinha desistido do sonho de ser escritora e por uma adversidade grave este sonho concretizou-se. Ler um livro é algo muito poderoso. E ler para uma criança é verdadeiramente mágico.

 

Entrevista por: Pedro MF Mestre

 

Foto - Bárbara Araújo http://www.barbararaujo.com/
 
Editora -

AVEC – “Heaven / Hell”

 

 

AVEC é uma jovem música e compositora austríaca. Ela já esteve algumas vezes em Portugal sendo a última no início de 2018 no WestwayLab.

 

A compositora é conhecida por transformar a face negativa da sua vida, no Som e na Letra criando a perfeita harmonia no prazer do ouvir dos seus trabalhos. Tem o Pop como seu estilo musical, oscilando entre o suave, o mais alternativo, conjugando também com temas mais ritmados.

 

É desta forma que está construído o seu último trabalho “Heaven / Hell”, um disco de originais com dez temas base, mais dois de bónus, escritos ao longo dos últimos dois anos, e é composto pelas músicas: Love, Over Now, Under Water, Close, Heaven Hell, Breathe, Still, Leaving, Alone, Yours, e ainda Body e Dear.

 

Este álbum teve estreia mundial a 14 de Setembro, e o single acompanhado pelo teledisco “Under Water” com lançamento feito a 17 de Setembro. “Under Water” é um tema que não é fácil interiorizar à primeira vez que se ouve e visualiza, contudo com a continuação descobrimos a riqueza que ele tem no seu interior, sendo que foi nele que a compositora fez a sua grande aposta. Ao fim de três dias do lançamento no canal da artista no Youtube já tinha quase 60 mil visualizações. Nesta rede social o seu maior êxito tem sido o tema “Dead”, com 240 mil visualizações em dois anos.

 

Para Portugal “Heaven / Hell” está disponível para aquisição através das plataformas de venda digitais, ou compra via Internet, não estando disponível a venda do CD nas lojas habituais. O disco tem no seu interior um interessante livreto com a letra das músicas, acompanhadas por ilustrações temáticas. A construção da capa em cartão duro torna-o ainda mais especial que as embalagens tradicionais. Para os mais aficionados e colecionadores a encomenda do CD poderá ser a melhor opção.

 

AVEC tem um plano de concertos muito ambicioso para 2018, em que até ao fim do ano tem agendados 27 espectáculos entre vários locais na Áustria, Alemanha, Holanda, Suíça, Luxemburgo e Bélgica.

 

À conversa com AVEC:

 

AMMA: Como consegue transformar os seus sentimentos em música?

 

AVEC: Para mim a música foi sempre uma forma de terapia, foi basicamente o isso que me levou a começar a escrever. Não sabia o que fazer com estas emoções e pensamentos na minha cabeça, então a música tem sido para mim uma espécie de escape, uma forma de me exprimir.

 

AMMA: Acontece enquanto está a compor, ou também quando está em estúdio e no palco?

 

AVEC: São três estados diferentes para mim. Quando componho necessito de estar sozinha, tenho que por tudo cá para fora e deixar que seja o coração e a alma a falar. Em estúdio estou mais focada nos arranjos e composição e tentar descobrir a forma de conjugar tudo. No palco sou uma pessoa um pouco tímida, não gosto muito de estar sobre os holofotes, de ser o centro das atenções, mas estou a tentar sê-lo. Contudo adoro estar com a banda à minha volta em palco, transpondo a minha música para o exterior, num ambiente afectivo e fazer vibrar as pessoas.

 

AMMA: O tema “Heaven / Hell” (Céu / Inferno) é o meio termo do que acontece na sua vida, os bons e os maus momentos são importantes?

 

AVEC: Claro que sim, a vida é assim não é? Tem que se lidar com as coisas boas assim como com as coisas más da vida, depende é da forma como se lida com isso. Na minha perspectiva sem os maus momentos na nossa vida, não podemos ter os bons, tudo acontece por algum motivo que acaba por nos tornar mais fortes.

 

AMMA: Porquê a escolha de “Under Water” para acompanhar o lançamento do álbum?

 

AVEC: “Under Water” é uma canção muito especial para mim, pois penso que tenha sido a mais autêntica que alguma vez escrevi. Este tema é sobre a honestidade, a reflecção e ser autêntica comigo própria. O que fez sentido escolher “Under Water” para ser o single de acompanhamento do álbum.

 

AMMA: Esteve em Portugal no início de 2018 no WestwayLab. Está nos seus planos voltar a Portugal para um concerto numa nova tournée?

 

AVEC: Gostaria muito de voltar, desejo que seja no próximo ano.

 

AMMA: É importante a ajuda dada pelo governo austríaco para artistas que estejam no início de carreira? O seu apoio é suficiente para os ajudar a divulgar o seu trabalho no estrangeiro?

 

 

AVEC: Nós temos um bom sistema de apoio na Áustria para artistas e músicos, sem dúvida acerca disso, e eu estou muito agradecida por todo o apoio que tenho recebido ao longo destes anos.

 

AMMA: As novas plataformas de música on-line serão a melhor forma de promover e comercializar o trabalho dos novos músicos, ou acha que os tradicionais CD’s, o suporte físico, continuam a ser uma boa forma de promover e vender o seu trabalho?

 

AVEC: Por muito que goste dos CD’s e do Vinil, penso que nos dias que correm, realmente a melhor forma de promoção e venda do trabalho de um artista é através das plataformas digitais: o online, o streaming e a comunicação social.

 

AMMA: Como pode um consumidor valorizar o seu trabalho construído para um álbum, quando se consegue adquirir apenas uma parte do se trabalho (por exemplo uma música só).

 

AVEC: É sem dúvida uma desvantagem das plataformas digitais, as pessoas tendem a comprar ou ouvir somente temas isolados em vez de se familiarizarem com o disco todo.

 

Texto: Pedro MF Mestre

Imagens: AVEC – Kidizin Sane

 

 

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“Os Corvos” comemoram 18 anos

 

 

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segunda-feira, 15 de julho de 2024 – 15:15:27

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