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Emanuel Machado e o Boxerpa - Da dedicação à superação

Já falámos do Boxerpa e de Emanuel Machado neste espaço, contudo voltamos a fazer para vermos como o esforço e dedicação de um atleta e treinador leva à superação de um objectivo. Neste caso para já o atleta está a começar a tirar a carta de condução.

 

Emanuel Machado foi ter com Carlos Gaspar, treinador e mentor do Boxerpa para o ajudar a conquistar a sua agilidade, requisito para começar a tirar a carta de condução que tanto ambiciona.

Carlos Gaspar põe mãos à obra e em conjunto com os colegas e alunos do Boxerpa começam a trabalhar no que Emanuel necessita.

 

Ao longo deste tempo, mesmo com a interrupção dos treinos que a pandemia nos sujeitou, temos o Emanuel Machado apto a iniciar a tirar a sua tão desejada carta de condução.

 

Vamos perceber em conjunto com o Emanuel e o seu treinador Carlos Gaspar como foi esta evolução que conduziu à superação.

AMMA: Emanuel quando chegou ao Boxerpa e pede ajuda a Carlos Gaspar sentia que conseguia através do treino na modalidade adquirir a agilidade que necessitava?

 

Emanuel Machado:  Quando fui pedir ajuda ao Gaspar, eu senti que só ele me poderia ajudar. Acreditei que o Gaspar me pudesse levar mais além e foi isso que facilitou na aprendizagem e a alcançar novas habilidades como por exemplo o respeito, a força de vontade entre outras.

 

AMMA: Nos treinos há momentos de realização, mas por vezes também há momentos de dúvida. Como conseguiu superar os momentos de provação?

 

EM: Sim tenho muitos momentos em que isso acontece mas depois paro, respiro e penso no que estava a fazer e a partir dai sei o que não estava a fazer bem. Por vezes e devido a querer ser rápido então quando eu volto e penso em fazer mais devagar as coisas saem bem até chegar depois e a conseguir fazer rápido.

 

AMMA: Para construir o portefólio que levou ao médico que assegurou que está apto para o início das aulas para obter a carta de condução, foi um momento delicado. Houve muita hesitação?

 

EM: Sim eu estava com muito receio de ele não querer mas ao mesmo tempo tinha a força de todos os que contribuíram comigo.

AMMA: Quando o médico lhe disse que está apto a dar este passo em frente, o que lhe veio à mente? Sentimento de alegria e agradecimento? Estava à espera do “sim” do médico?

 

EM: Sim eu estava a espera que ele dissesse “sim” e estou muito feliz e grato por todos os que entraram nesta jornada para que este objetivo fosse comprido. A todos os que me ajudaram o meu grande Obrigado.

 

AMMA: Quando tirar a carta, qual vai ser o seu primeiro obectivo? Tem alguma viagem em mente?

 

EM: Sim primeiro quero partilhar esta alegria com os que me ajudaram. Depois quero ir visitar uma amiga da minha antiga escola que estou com muitas saudades de a ver.

 

AMMA: Que mensagem quer deixar sobre a sua árdua caminhada por este propósito e atingir a superação? O que quer dizer a quem nos está a ler?

 

EM: Eu quero só dizer que nunca desistam de lutar pelos vossos sonhos. Não é por serem com caraterísticas especiais que são menos que os outros. Eu sou um especial e quis demonstrar que nos especiais também fazemos as coisas normais. Então não deixem as pessoas egoístas dizerem que não podem, porque vocês podem. Basta lutar e um dia lá chegarão. A quem me esteve a apoiar e a ajudar Muito Obrigado.

 

Agora vamos ver o trabalho que Carlos Gaspar e a sua equipa teve neste processo de superação. Aqui vemos que um desporto de combate não leva à violência, antes pelo contrário, tem o princípio da não-violência. É algo que aos poucos se tem desmistificado nas artes marciais e desportos de combate, mas ainda há muito quem tenha essa visão sobre estas modalidades.

 

AMMA: O caso do Emanuel é uma prova que o boxe serve para ajudar a superar determinadas barreiras, mesmo sendo um desporto de combate, não é uma actividade violenta. Quando o Emanuel o procurou e disse o que pretendia, o que achou? Um desafio para si e para a sua equipa?

 

Carlos Gaspar:  Sim, sem duvida mais um desafio. o Boxerpa tem desde 2014 um programa de apoio social e integração através do desporto de nome “ CUIDAR DE MIM”, achamos que dentro desse conceito, o Emanuel tinha tudo para poder entrar no programa e assim iniciar o trabalho de obtenção de critérios para ir ao encontro do seu objectivo.

 

AMMA: O que teve que trabalhar no Emanuel para ele superar a questão da agilidade e conseguir estar apto para começar a tirar a carta de condução?

 

CG: Foi um trabalho amplo e diversificado porque o Emanuel vinha destroçado e desiludido com a forma como sempre lhe apresentaram a condição  que ele tem. Dessa forma houve necessidade de reconstruir, criar novas esperanças e em paralelo todo um trabalho de exercícios físicos e de ação reação, o reflexo, o instinto e a capacidade de visão preceptiva e reflexo psicológico ao que pode vir  a acontecer. A esse processo físico e psicológico chamamos de boxe educativo.

 

AMMA: Sendo o Boxerpa uma associação inclusiva ele teve treinos com os restantes atletas, como foi a interação do vosso grupo e o Emanuel nas aulas? Que trabalho extra teve que ser feito entre todos?

 

CG: houve durante uns meses necessidade de analisar a verdadeira condição do Emanuel .

Não tínhamos nada sobre o Emanuel, não tínhamos um relatório clinico, uma definição da condição psicológica e cognitiva, nada. Começamos tudo a zeros e sempre com muito cuidado não só para não prejudicar o Emanuel, como para também não criar falsas esperanças a quem até nos chegou cheio delas.

Os treinos foram sendo isolados, mais tarde mistos e depois completamente integrados nos grupos de trabalho. Neste processo começamos a questionar de forma responsável e sem querer ofender a comunidade médica, se o diagnóstico de reflexologia e cognitivo estaria de certa forma totalmente correto e começamos a insistir os pedidos de opinião médica sobre o que se passava com o Emanuel.

Nessa altura havendo um instituição a pedir informações e estando o Emanuel num programa, começaram a enviar nos relatórios onde nos apercebemos que todas as condições referidas eram físicas, nenhuma apontava ou assumia que o Emanuel tinha défice da condição cognitiva e psicológica.

 

AMMA: A pandemia teve impacto nas aulas de muitas modalidades desportivas, nomeadamente as modalidades de contacto como é o boxe, mesmo assim como conseguiu manter unido o Boxerpa e neste caso concreto o trabalho com o Emanuel mesmo sem a presença física em sala?

 

CG: Muito difícil. Houve inclusive um vislumbre de que o Boxerpa podia estar em risco. Serpa, Alentejo interior, única escola oficial de boxe de Setúbal ate ao Algarve, uma cidade com 7 mil habitantes onde há 9 modalidades colectivas… sala fechada por motivos de saúde publica, eu próprio sem trabalho em Serpa a ter de sair temporariamente para Lisboa a fim de manter a minha condição pessoal e familiar a tona de água…, da que pensar. No entanto todos os instrutores, quer o adjunto do boxe, José Mendes, quer os outros instrutores e monitores, Burn fit - João Moquenco e Alexandre Coelho, vice presidente , foram a chave determinante para que tudo se mantivesse.

AMMA: Quando o Emanuel lhe disse que tinha obtido o “sim” do médico para iniciar o seu objectivo, foi o receber de uma medalha de ouro para ambos?

 

CG: Foi incrível. Primeiro porque nós tínhamos sugerido outra apreciação médica e ao ser feita tudo se desmistificou. Depois porque percebemos que há muita alma e conteúdo no caracter do Emanuel o que vinha ao encontro daquilo que na nossa modesta apreciação e experiencia tínhamos afirmado.

Depois também mais um sucesso do programa que embora pouco reconhecido em Serpa, veio mais uma vez a mostrar que somos assertivos e estamos a trabalhar bem.

Por isso , de forma institucional foi óptimo, mas para mim, criador do programa, e “pescador “ de pessoas em situação de risco e desalento foi extremamente gratificante. Quando ajudamos os outros, estamos a ajudar-nos a nós!

 

AMMA: Quando iniciou o seu trabalho do Boxerpa imaginou que iria ter um aluno como o Emanuel que com o treino e dedicação conseguiu superar os seus problemas?

 

CG: Não imaginamos nem fazemos perspectivas sobre quem chega até nós.

O programa trabalha em diversas frentes: crianças até aos 12 anos que são bullys ou sofrem bullyng ou tem dificuldades de motricidade ou integração, jovens e jovens adultos até aos 17 anos com situações de violência, desalento ,consumos de substâncias, delinquência ou condição física e  psicológica especial e adultos em fase de reorganização pessoal depois de traumas ou depressão.

O Emanuel chegou na verdade com um tema até agora novo para nós. Desta forma obviamente muito importante investigar e perceber que novas abordagens ou critérios de trabalho podíamos fazer com ele. E foi o que fizemos e nos envolvemos todos .

 

AMMA: O que deseja passar para os nossos leitores, sendo atletas ou não, sobre o trabalho de uma associação como o Boxerpa, a inclusão e a superação?

 

CG: Apenas dizer uma frase cliché usada na justiça portuguesa: “Atenção , todos somos inocentes até prova em contrario”.

Agora vou explicar ao jeito Boxerpa. Todos os que entram naquele espaço são considerados e vistos como capazes desde o primeiro minuto e revelação das suas situações... Não menosprezem ninguém pelo seu aspeto ou condição , numa sociedade no séc. XXI todos somos úteis uns para os outros e todos temos o direito de ser felizes respeitando as diferenças e condições. Ser bom na vida é ter a capacidade de ser feliz com aquilo que se tem e  se conquista e o respeito deve prevalecer entre as pessoas!

 

Texto: Pedro MF Mestre

Fotos: cedidas por Emanuel Machado e Carlos Gaspar/Boxerpa

 

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domingo, 27 de novembro de 2022 – 16:23:31

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