O presidente da Federação Portuguesa de Rugby afirma, em entrevista ao site da FPR, que não pensa noutra coisa a não ser na qualificação da Seleção Nacional para o Mundial XV, que se joga em Londres em 2015. Amado da Silva garante ter confiança nos “Lobos”.
O líder federativo aceitou o desafio de fazer um balanço do ano que terminou e de projetar 2013 no que ao rugby nacional diz respeito. O trabalho das selecções, o novo modelo competitivo do Campeonato, as novas competições ibéricas e latinas que estão em fase de projecto e o rugby feminino são assuntos que merecem destaque na conversa com Amado da Silva, presidente da FPR e recém-eleito vice-presidente da FIRA-AER.
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Terminou 2012 e a segunda metade do ano foi de facto muito positiva. Desde os sevens aos sub-19 e sub-18, os objetivos foram alcançados. Que balanço faz?
O balanço é, necessariamente, muito positivo. Todos os objetivos essenciais, foram cumpridos. Mesmo alguns daqueles que, à partida, não o eram…. Refiro-me aos sub-19 que, apesar de sabermos que podíamos ganhar à Geórgia, tínhamos noção que as hipóteses eram remotas. Foi impressionante assistir à determinação dos nossos jogadores num jogo de grande qualidade que, podemos dizer, foi do nível de um bom jogo de seniores.
Em sub-18 conseguimos manter – nos no Grupo de Elite, onde, conjuntamente com a Geórgia, iremos competir com as Seleções dos Países das Seis Nações. Muito importante e que dá sinais evidentes do trabalho consistente que se vai fazendo nas camadas mais jovens.
Nos sevens conseguimos o apuramento para o Mundial 2013 e carimbar o passaporte como equipa residente no Circuito Mundial alcançando os objetivos a que nos tínhamos proposto.
No XV, num ano de preparação e de experiências em que não havia obrigação de ganhar, obtivemos resultados maus, quer no Europeu quer na IRB Nations Cup, acabando, na parte final, em Novembro, por ganhar ao Chile e ao Uruguai na América do Sul, dando dessa forma o sinal de que a nossa qualidade nos permite esperar melhores dias.
Desportivamente, em termos globais, posso dizer que estou muito satisfeito.
No aspeto organizacional da Federação Portuguesa de Rugby as coisas têm evoluído de forma favorável. Há uma cultura de funcionamento que não se enquadra nos padrões de modernidade, com uma maior responsabilização, eficácia e eficiência, o que se só se consegue com uma mudança de atitude o que exige tempo. É pior, muitas vezes, proceder a alterações num sistema viciado do que partir do nada. Quando começamos do zero, tudo se pode construir à nossa imagem.
Está, entretanto, definida uma organização estrutural que julgo que se adequa às atuais necessidades crescentes da FPR, reflexo do aumento da sua atividade. Com a nomeação de um novo Secretário-geral, com funções claramente definidas, esperamos que as coisas vão começar a correr melhor. A recente colaboração de um conselheiro da presidência da FPR, uma pessoa muito experiente e conhecedora da realidade do rugby nacional, veio reforçar a capacidade de resposta em matérias desportivas e de organização o que constitui uma ajuda muito importante.
Em termos de organização desportiva, sob a responsabilidade do Diretor Técnico Nacional, a situação está controlada com as equipas técnicas definidas e em pleno funcionamento. O rigor e a qualidade do trabalho que se está a realizar é o maior garante da continuação dos bons resultados que se veem conseguindo.
Financeiramente, com as dificuldades conhecidas, com a permanente preocupação de redução do passivo, sem prejudicar a atividade, nacional e internacional, cada vez mais intensa e com maiores responsabilidades, se o apoio do IDPJ e dos patrocínios que estão em vista se mantiverem aos níveis dos últimos anos as questões orçamentais serão superadas.
E o novo Centro de Alto Rendimento no Jamor vai potenciar ainda mais o rugby…
Estamos a dias de assinar, finalmente, um protocolo de entendimento com o IDPJ no sentido de tornar o Centro de Alto Rendimento do Rugby no Jamor um espaço digno. Vai ser ali, em definitivo, o local das seleções de rugby. Para além do Campo A e B, o IDPJ vai ceder-nos o Campo 3 onde serão também serão construídos uns balneários de apoio. Toda a atual estrutura situada debaixo das bancadas – balneários, gabinetes, ginásio, etc. – vai sofrer obras de adaptação e melhoramento. Ainda numa primeira fase, no Campo A, o atual relvado será completamente renovado tal como a respetiva eletrificação. Posteriormente, numa segunda fase, proceder-se-á cobertura da atual bancada, ao que se juntará a construção de cabines de imprensa e de camarotes. Posteriormente, numa fase mais adiantada, construiremos uma bancada entre os dois campos, também coberta, para que possa albergar, em simultâneo, espetadores dos dois campos. Finalmente, logo que tenhamos o espaço prometido para o efeito, construiremos, também no Estádio Nacional, a nova sede da FPR. Quando houver disponibilidade financeira propomo-nos fechar o campo A com bancadas, nos topos norte e sul, para podermos assim albergar sete ou oito mil espetadores.
Ainda em termos de balanço, mas fazendo já a ponte para 2013, como vê agora, já em prática, o novo modelo competitivo do Campeonato
Eu sou suspeito ao dizer que é bom mas, antes de mais, esta é a vontade de todos os clubes. Essa foi a primeira vitória nesta questão porque, pela primeira vez na história, os clubes puseram-se todos de acordo. Creio que está a resultar muito bem com as equipas mais equilibradas, apesar de uma pequena perda de qualidade do jogo o que é contrabalançado com a possibilidade de muitos mais jogadores jovens se poderem mostrar. Estou convencido que este é, de facto, o modelo que melhor se adequa às nossas realidades. Aliás não tenho qualquer mérito a não ser de ter aprovado este modelo proposto por pessoas que não integram a estrutura federativa.. Nunca me importei de copiar coisas que fossem boas, desde que o sejam para todos. Creio até que outros nos copiarão. Pode ser que Espanha, depois de ter visto o CDUL ganhar a Taça Ibérica, seja já o primeiro a fazê-lo.
Já que falámos da Taça Ibérica, como estão as relações com a congénere espanhola agora com o novo presidente?
O novo presidente da Federação Espanhola tem uma visão do rugby semelhante à minha. Não faz sentido não aproveitar a nossa proximidade para potenciarmos o rugby ibérico. Queremos criar duas competições, uma de Clubes e outra de Regiões, dependendo do apoio financeiro e da anuência dos Clubes. Vamos ver. A Taça Ibérica pode retomar o que se fez num passado recente, com quatro equipas portuguesas e quatro espanholas. Os diretores técnicos nacionais dos dois países irão estudar, em conjunto, estes problemas e atempadamente submeterão as respetivas propostas. Há aqui uma viragem, uma mudança de rumo, que é muito importante. Antes, pura e simplesmente, eles não queriam jogar connosco. Admito haver uma sobrecarga no calendário desportivo da próxima época mas só desta forma o rugby pode pensar em evoluir. Quando assumi a presidência da FPR realizavam-se cerca de 700 jogos anuais, sendo que esta época, com um orçamento mais baixo, se irão disputar cerca de 3.300 jogos.
E depois da Taça Ibérica, vem a Taça Latina?
Entrei em contacto com os presidentes do Uruguai, Chile, Espanha, Roménia e Argentina no sentido de propor à IRB uma competição latina em alternativa à já habitual Nations CUP. Gostávamos, porque pensamos ser muito importante, criar uma Taça Latina com países sul-americanos e ibéricos.
Todas estas competições dão prestígio mas nada se compara a um Campeonato do Mundo. Vamos estar no Mundial XV em Londres?
Nós temos todas as hipóteses de ir ao Mundial mas os outros também têm. Não há nenhuma equipa fraca. A Bélgica, supostamente a equipa menos forte, tem 17 jogadores que jogam em França, o que demonstra bem as suas intenções… Estamos a criar todas as condições para que a equipa nacional se apresente na melhor forma. Vontade e competência existem e, por isso, estamos na linha da frente para o conseguirmos. O primeiro objectivo da federação, sempre o disse, é de estarmos de regresso ao Mundial XV. É extremamente importante. Este é o único objectivo que ainda não cumprimos. Vai ser tremendamente difícil, sem dúvida. 2012, em termos de Seleção de XV, foi um ano que correu mal, francamente mal, mesmo tendo em conta os adversários que defrontámos e as muitas alterações e experiências que fizemos – estamos a falar de 50 jogadores – não se podem justificar tão maus resultados, exceção feita aos jogos de Novembro, onde tudo foi diferente.
Os resultados na digressão pela América do Sul, em Novembro, dão-lhe tranquilidade?
Não. Os resultados foram melhores que as exibições. Gostei porque, obviamente, todos gostamos de ganhar. Foram jogos muito equilibrados e extremamente competitivos. Tivemos uma atitude como há muito não se via o que, apesar de terem faltado jogadores muito importantes, nos permitiu ganhar ao Uruguai - pela primeira vez – e ao Chile. Não podemos ficar plenamente satisfeitos com estes resultados em termos absolutos porque é preciso sermos muito mais consistentes e trabalhar mais e , pelo menos, com a mesma determinação se quisermos estar presentes no Mundial.
Errol Brain é o seu treinador até ao Mundial?
Os contratos, na Federação Portuguesa de Rugby, são para se cumprir mas há objetivos mínimos. O Errol Brain tem procurado renovar a equipa mas esse período experimental já acabou ou devia ter acabado…. Este ano não há mais espaço para errar. O contrato do Errol acaba em Março mas, se tudo correr bem, será renovado porque todos queremos ir ao Mundial. Estou absolutamente confiante que tal acontecerá.
Os clubes franceses, como o presidente disse numa outra entrevista, têm dificultado a dispensa dos jogadores. Como estão as relações agora?
Vamos agora fazer um estágio, em França, em Marcoussis, para tentar minorar esses problemas. Não tem sido – nem vai ser - fácil. Os Clubes franceses querem defender os seus interesses e não se têm preocupado em respeitar a legislação. Estamos a ser muito prudentes e cautelosos para não prejudicar os jogadores, mas evidentemente que iremos fazer valer os nossos direitos.
O Rugby feminino é agora um dos seus pelouros. Que projetos tem em mente?
Estamos a trabalhar para que haja mais jogadoras, mas não é fácil. Gostava muito de ter uma equipa feminina forte para lutarmos pelas grandes competições ,mas as dificuldades são muitas. Há apenas meia dúzia de equipas de XV pelo que a variante de sevens acaba por ser a que tem maior expressão nacional. É urgente aumentar a base de escolha para que se possa progredir. A Seleção feminina passou a ser um dos meus pelouros diretos o que significa o apreço e a confiança que deposito no trabalho que está a ser feito. Devo, todavia, fazer uma autocrítica e admitir que não tenho estado presente como gostaria e deveria. Vou tentar retificar..
Foi recentemente eleito vice-presidente da FIRA-AER. Que importância tem o novo cargo?
É um reconhecimento pelo que temos feito a nível desportivo e organizacional. Tem sido feito um grande trabalho. Prova disso é também o facto do Eng.º Raul Martins ter sido convidado para integrar o conselho executivo da FIRA. Têm respeito por nós e pelo nosso trabalho. Portugal passou a ser ouvido de forma diferente. É , pelo menos, a minha convicção.